Por Prof. Douglas De Matteu, PhD
Entrevista publicada originalmente na edição 13 da Revista Líderes — março/abril de 2026.

À frente da Core Group e da presidência do Instituto Mulheres no Varejo, Sandra Takata defende uma liderança com propósito, coragem e visão humana em um setor que vive profundas transformações.
Em um tempo em que liderança deixou de ser apenas sinônimo de comando para se tornar exercício de influência, sensibilidade e construção de legado, a trajetória de Sandra Takata chama atenção pela consistência entre discurso e prática. Jornalista de formação, empresária, especialista em comunicação e presidente do Instituto Mulheres no Varejo, ela construiu uma carreira em que reputação, acolhimento e transformação caminham juntos.
Ao conversar com a Revista Líderes, Sandra revela uma jornada moldada não apenas pela técnica da comunicação, mas por uma inquietação profunda diante de crenças limitantes e das barreiras historicamente impostas às mulheres. Sua história mostra que liderar, para ela, nunca foi apenas ocupar espaço. Foi, antes de tudo, abrir espaço para outras pessoas também avançarem.
Revista Líderes: Sandra, conte um pouco da sua trajetória e de como nasceu sua conexão com a comunicação.
Sandra Takata: Sou jornalista de formação, empresária, mãe de duas filhas e hoje também atuo como presidente do Instituto Mulheres no Varejo. Minha conexão com a comunicação nasceu de uma inquietação muito profunda. Sempre me incomodaram crenças limitantes e estruturas que tentavam dizer às mulheres qual deveria ser o seu lugar. O jornalismo surgiu para mim como uma ferramenta de transformação, de questionamento e de voz.
Revista Líderes: E como o varejo entrou na sua vida profissional?
Sandra Takata: Depois de experiências como a revista Capricho e uma retransmissora da Globo Internacional no Japão, migrei para a agência de comunicação fundada pelo meu marido. Nosso primeiro cliente estava ligado ao varejo, e isso nos levou a uma especialização cada vez maior nesse ecossistema. Hoje, a Core Group atua há quase 25 anos focada em reputação, LinkedIn e assessoria de imprensa para empresas do varejo, logística, indústria e pesquisa.
Revista Líderes: Como nasceu o Instituto Mulheres no Varejo?
Sandra Takata: O Instituto surgiu a partir de um episódio muito marcante de violência doméstica envolvendo uma executiva do setor. Isso mobilizou Fátima Merlin e Vanessa Sandrini a criarem uma rede de apoio, acolhimento e fortalecimento para mulheres do varejo. Eu entrei como voluntária na área de comunicação e, com o tempo, essa atuação ganhou um significado muito profundo para mim.
Revista Líderes: Quais são as principais frentes de atuação do Instituto?
Sandra Takata: O Instituto promove encontros, mentorias, eventos, ações de capacitação, apoio à empregabilidade, recolocação profissional e fortalecimento da autoestima. É um espaço de troca e pertencimento. Durante a pandemia, por exemplo, reforçamos ações de acolhimento e apoiamos também o projeto Sinal Vermelho contra a violência doméstica.
Revista Líderes: Qual é hoje o principal desafio de manter esse movimento vivo?
Sandra Takata: O maior desafio é o engajamento contínuo no voluntariado. As pessoas têm muitas demandas, e o trabalho voluntário acaba competindo com rotina, família e carreira. Por isso, sempre acreditamos em começar pequeno, criando encontros próximos, conexão verdadeira e pertencimento. Quando a mulher se sente parte, ela passa a defender a causa com muito mais força.
Revista Líderes: Como você avalia o momento atual do varejo brasileiro?
Sandra Takata: O varejo vive uma pressão muito grande. Temos juros altos, famílias endividadas, margens apertadas e mudanças significativas no comportamento de consumo. Existem ainda fenômenos recentes, como o impacto das bets e das canetas emagrecedoras, que afetam diretamente o consumo. O setor terá de se reorganizar para entender esse novo consumidor e responder com rapidez.
Revista Líderes: E o futuro do trabalho no varejo?
Sandra Takata: A automação e a inteligência artificial vão ganhar muito espaço. Já existe uma escassez de mão de obra para funções presenciais, especialmente nas lojas. Ao mesmo tempo, isso nos obriga a pensar no futuro das pessoas que não tiveram acesso à educação e à qualificação necessárias para acompanhar essas mudanças. Também acredito que veremos uma participação maior de profissionais 50+ e novos formatos de trabalho mais flexíveis.
Revista Líderes: Na sua visão, o que define uma boa liderança nesse contexto?
Sandra Takata: Liderança, para mim, é legado. É claro que resultado importa, mas ele precisa vir acompanhado de olhar humano, reconhecimento, pertencimento e liberdade. O líder precisa fazer com que as pessoas compreendam que estão construindo algo valioso. A nova geração não quer apenas remuneração. Ela quer sentido, crescimento e valorização.
Revista Líderes: Que competência continua indispensável para quem quer atuar no varejo?
Sandra Takata: Gostar de gente. Parece simples, mas é essencial.
O varejo é um setor de contato humano, de pressão, de desafios constantes. É preciso ter resiliência, equilíbrio emocional e capacidade de lidar com pessoas em diferentes contextos.
Revista Líderes: Um ponto muito forte da sua fala foi a ideia de “hackear o sistema”. O que isso significa?
Sandra Takata: Significa encontrar caminhos quando as regras estabelecidas não foram feitas para te favorecer. Muitas mulheres precisaram fazer isso ao longo da vida. Às vezes, hackear o sistema é reposicionar a própria narrativa, valorizar as competências reais e não aceitar que o preconceito defina o seu lugar.
Revista Líderes: Que mensagem você deixa para as mulheres?
Sandra Takata: Eu desejo que os processos sejam vividos com mais leveza. E que cada mulher se lembre do poder da coletividade. Quando uma mulher entende que não está sozinha, muita coisa muda.
Revista Líderes: E liderança, em uma frase?
Sandra Takata: Liderança é ter liberdade e também dar liberdade.
Ao longo da conversa com a Revista Líderes, Sandra Takata mostrou que liderança vai muito além de ocupar posições de destaque. Em sua trajetória, comunicação, propósito, acolhimento e coragem se unem para construir pontes, fortalecer mulheres e gerar transformação real. Em um varejo desafiado por mudanças profundas, sua voz reforça uma verdade essencial: resultados importam, mas o legado nasce mesmo quando a liderança também sabe cuidar de pessoas.
Sobre o entrevistador

Prof. Douglas De Matteu, PhD é CEO do Grupo IAPerforma e editor-chefe da Revista Líderes. Administrador, professor universitário, investidor, jornalista e escritor.