Eduardo Feldberg transformou educação financeira em humor, influência e impacto social. Agora, revela como liderar milhões sem perder a simplicidade, a ética e o propósito.
Por Prof. Douglas De Matteu, PhD
Entrevista publicada originalmente na edição 14 da Revista Líderes — maio/junho de 2026.

Em um país onde falar sobre dinheiro muitas vezes parece privilégio de poucos, Eduardo Feldberg escolheu outro caminho: simplificar. Mais do que isso, escolheu ensinar com humor, proximidade, verdade e responsabilidade.
Conhecido nacionalmente como Primo Pobre, Eduardo construiu uma das maiores comunidades digitais de educação financeira do Brasil. O que começou de forma despretensiosa, com vídeos simples no YouTube, transformou-se em um movimento de impacto. Hoje, seu conteúdo alcança milhões de pessoas, especialmente aquelas que, por muito tempo, se sentiram excluídas do universo das finanças, dos investimentos e da organização financeira.
Mas, ao longo da entrevista, ficou evidente que o fenômeno Primo Pobre não se explica apenas por números, visualizações ou prêmios. Ele se explica por algo mais profundo: autenticidade. Eduardo não interpreta um personagem. Ele mesmo afirma que o Primo Pobre é exatamente quem ele é na vida real.
Revista Líderes: Antes do Primo Pobre, quem é Eduardo Feldberg?
Eduardo Feldberg: Muita gente pergunta se o Primo Pobre é um personagem. E, na verdade, o Primo Pobre é exatamente como o Eduardo Feldberg. Não existe uma interpretação artística. O jeito que eu sou no canal é o jeito que eu sou na vida.
Eu sou paulista, tenho 41 anos, sou cristão, casado, e sempre gostei muito de trabalhar. Sempre pensei que, quanto mais eu trabalhasse, mais dinheiro eu conseguiria ganhar. Por isso, mesmo quando era CLT, eu tinha várias outras fontes de renda.
Também sempre gostei muito de ensinar. Talvez isso tenha vindo da minha vivência na igreja, onde a gente é incentivado a ministrar, dar aula, participar de escola bíblica, teatro e atividades comunitárias. Isso ajudou a formar esse meu lado extrovertido e esse gosto por compartilhar conhecimento. Minha formação não é em economia. Eu fiz conservatório de música, seminário de teologia e produção audiovisual. Como eu não tinha pedagogia, não podia dar aula em escola. Então fui para o YouTube. E foi no YouTube que, depois de muito tempo, deu certo. Eu faço vídeos desde 2012, mas só em 2021 minha vida começou realmente a mudar.
Revista Líderes: Como nasceu o Primo Pobre?
Eduardo Feldberg: Foi por causa de um vídeo. Eu fazia vídeos sobre tudo que aprendia. Vídeos de música, teoria musical, como trocar chuveiro, como arrumar máquina de lavar, como fazer coisas em casa.
Tudo que eu aprendia, pensava: “Isso pode ajudar alguém a resolver um problema sem precisar pagar.”
Quando financiei o apartamento onde moro até hoje, fiz como muitos brasileiros: financiei em 30 anos. Só que eu nunca gostei de dívida. Então comecei a estudar formas de quitar mais rápido e descobri a amortização.
Um dia, cheguei cansado do trabalho, peguei o celular e gravei um vídeo explicando como amortizar financiamento imobiliário. Na época, meu canal tinha cerca de 30 seguidores. O vídeo viralizou de uma forma absurda. Em um mês, o canal saiu de 30 para 230 mil inscritos. As pessoas começaram a se inscrever achando que era um canal de educação financeira. Eu não tinha planejado virar educador financeiro ou influenciador. Simplesmente aconteceu. Depois, um seguidor comentou algo como: “Tem o Primo Rico de Alphaville e você é o Primo Pobre de Osasco.” Gostei do nome. O próprio público deu o nome ao canal. A partir daí, comecei a estudar mais, tirei certificações e o canal continuou crescendo. Vieram prêmios, o livro Deixa de Ser Pobre, o Pobre Show e outros projetos. Mas o que eu mais amo continua sendo ensinar.
Revista Líderes: O que explica essa conexão tão forte com o público?
Eduardo Feldberg: Acho que é a comunicação simples. Eu gosto de ensinar de um jeito que qualquer pessoa entenda. Uma pessoa analfabeta precisa entender o que estou falando. Se uma criança de 13 anos não entender, eu acho que fracassei.
Eu lembro que, anos atrás, queria aprender filosofia, mas não entendia nada do que lia. Achava que era burro. Até que conheci O Mundo de Sofia, que ensina filosofia para uma criança. Ali eu entendi que tudo que eu fosse ensinar na vida deveria ser explicado como se eu estivesse ensinando uma criança.
No meu canal, eu não posso falar como se todo mundo já soubesse o que é Selic, CDI, IPCA ou inflação. Sempre tem gente chegando agora. Então eu baixo muito a régua. Não no sentido de empobrecer o conteúdo, mas no sentido de tornar acessível.
Eu escrevi meu livro exatamente do jeito que eu falo. Pedi para a editora não deixar o texto mais chique, mais pomposo ou cheio de termo técnico. Eu queria que uma pessoa que nunca leu um livro de educação financeira conseguisse entender tudo.
Revista Líderes: Você não aparece ostentando carros, jatos ou luxo. Pelo contrário, suas redes mostram muitas ações sociais. De onde vem isso?
Eduardo Feldberg: Cada pessoa tem um prazer diferente para gastar dinheiro. Tem gente que ama carro, tem gente que quer casa chique, tem gente que gosta de viajar, de restaurante caro. Eu respeito isso. Mas o meu maior prazer é projeto social.
Acho que isso tem a ver com simplicidade. Eu fico feliz com pouco. Sou cristão e tento exercitar muito dois princípios: gratidão e contentamento.
Hoje, por conta da internet, as pessoas estão sempre desesperadas para alcançar o próximo nível. Não curtem o que têm, não valorizam o que têm e vivem se comparando.
O canal mudou minha vida e a vida da minha esposa. Hoje temos coisas que nunca imaginamos ter. Estamos construindo uma casa que é um sonho. Mas eu estou ganhando muito mais do que preciso. Eu poderia juntar para comprar mais carros, mais casas, mais roupas, mais tênis, mais relógios. Só que eu não preciso disso.
Então penso: se estou ganhando mais do que preciso, o que faço com o dinheiro que sobra? Projeto social. A gente doa cesta básica, cava poço, vai ao sertão, está construindo uma escola em Angola para 200 crianças, doamos cadeiras de rodas motorizadas para crianças com paralisia. Eu não deixo que o dinheiro me molde. Eu coloco o dinheiro no devido lugar.
Ele serve para me dar liberdade e qualidade de vida, mas não quero viver nessa neura de sempre subir mais um nível.
Revista Líderes: Para você, o que é ser líder?
Eduardo Feldberg: Ser líder é ser uma referência e um exemplo. Não tem muito a ver com ser chefe. Eu gosto muito da liderança pelo exemplo.
Na minha vida, já tive chefes e já tive líderes. São coisas diferentes. Tem chefe que, quando chega, todo mundo fica irritado. A equipe pensa: “Lá vem ele reclamar, encher o saco, cobrar.” E tem líder que, quando chega, a equipe sente tranquilidade: “Que bom que você chegou, me ajuda aqui.”
O líder é uma pessoa que sabe organizar, dar direção, acalmar, colocar ordem, dar bronca quando precisa, mas também inspirar. O líder inspira as pessoas a quererem ser melhores.
Eu também tenho desafios como líder. Tenho dificuldade de dar ordem, por exemplo, porque não me sinto bem. Também sou muito acelerado e, às vezes, prefiro fazer eu mesmo em vez de delegar. Mas sei que o bom líder é aquele que capacita a equipe e tem paciência para desenvolver pessoas.
Para mim, o líder é alguém que faz os outros olharem e pensarem: “Quero ser como ele.”
Revista Líderes: Como é exercer influência sobre milhões de pessoas falando de dinheiro?
Eduardo Feldberg: A palavra principal é responsabilidade. Principalmente porque eu exerço influência na área financeira. Aí o bicho pega mais ainda.
Finanças são uma das maiores causas de estresse na vida das pessoas. Então, eu preciso estudar muito para não falar besteira. O líder não pode ser acomodado. Ele precisa dar exemplo inclusive nisso.
Também é preciso ter humildade para admitir quando erra. Já aconteceu de eu falar uma informação errada em uma palestra. Depois fui pesquisar, percebi o erro e fiz um vídeo dizendo: “Galera, falei errado. A informação correta é essa.” Isso é importante.
E tem uma responsabilidade muito grande com o público. Se meu público é o pobre, não adianta eu dar dica que não serve para ele. Eu não divulgo bet, mesmo sabendo que poderia ganhar milhões com isso. Também não faço publicidade de cartão de crédito ou carro por assinatura, porque para uma pessoa que ganha R$ 3 mil isso não faz sentido.
É uma questão de responsabilidade e autenticidade. Eu preciso acreditar naquilo que falo. Se eu começo a divulgar algo só por dinheiro, mesmo sem acreditar, as pessoas percebem.
Revista Líderes: Quais princípios norteiam suas decisões?
Eduardo Feldberg: Ética, integridade e coerência. Tem coisas que talvez nem sejam erradas, mas eu acho que não se aplicam ao meu público. Eu não posso enganar ninguém, fingir algo ou ocultar informações.
Por exemplo: empresas de consórcio já quiseram me pagar para fazer vídeo. Eu digo: “Posso divulgar, mas vou falar o que tem de bom e o que tem de ruim. Você topa?” Eu não aceito merchan em que só posso falar o lado bonito. Eu não posso enganar meu público. Não posso vender uma coisa como se fosse maravilhosa se tem riscos ou pontos ruins. No mercado financeiro, muita gente se vende por dinheiro. Empresas de finanças pagam muito, principalmente quando o serviço é ruim. Mas eu prefiro priorizar meu público mais do que meu bolso. E, fazendo isso, tem dado muito certo.
Revista Líderes: O Instituto Primo Pobre nasce desse desejo de ampliar o impacto social?
Eduardo Feldberg: Sim. Hoje, todos os projetos sociais que faço são 100% com meu dinheiro e da minha esposa. Não uso dinheiro de patrocinador, publicidade ou seguidor.
Mas, quando penso em sonhos, percebo que já alcancei muitas coisas que queria. Tenho um carro legal, estou construindo minha casa, tenho liberdade para viajar e tirar uns dias quando quiser. Então, hoje, meus sonhos têm mais a ver com ajudar os outros do que com conquistas minhas.
Por isso, meu grande projeto é o Instituto Primo Pobre. Quero usar o dinheiro que ganho com meus negócios, palestras e publicidade para fazer projetos sociais em maior escala. No futuro, quero criar uma estrutura auditada e transparente para que seguidores também possam contribuir, se quiserem.
Muita gente quer fazer o bem, mas não sabe como e não confia em ninguém. Meu público confia em mim. Então, penso em permitir, no futuro, que alguém possa doar R$ 30 por mês e acompanhar para onde vai o dinheiro.
Hoje, eu já fico feliz com o que faço. Mas sonho fazer muito mais. A gente cavou 10 poços no Piauí. Meu sonho é um dia cavar mil poços em um mês.
Revista Líderes: Você acredita que está vivendo seu chamado?
Eduardo Feldberg: Totalmente. Sinto que estou cumprindo meu chamado, exatamente no lugar onde sinto que Deus quer que eu esteja e onde eu também quero estar.
A educação financeira transforma vidas. É muito gostoso receber depoimentos de pessoas dizendo: “Duda, você mudou minha vida. Consegui quitar minha dívida. Consegui organizar minha vida. Consegui começar uma renda extra.”
Recebo muitos relatos de pessoas que quitaram apartamento por causa do vídeo de amortização. Também tem um vídeo chamado 52 ideias de renda extra, em que dou ideias para a pessoa ganhar mais dinheiro além do trabalho. Tem gente que mudou de vida por causa daquele vídeo.
Uma moça me encontrou em um evento no Rio de Janeiro com brigadeiros e beijinhos. Ela disse que começou a vender doces por causa daquele vídeo, depois se especializou e abriu uma confeitaria.
Também recebo depoimentos de pessoas que saíram da depressão porque conseguiram organizar a vida financeira. Dívida gera muita angústia. Quando a pessoa se organiza, isso muda muita coisa.
Revista Líderes: Que recado você deixaria para líderes?
Eduardo Feldberg: Eu diria duas coisas. Primeiro: tente ser uma pessoa que os outros olham e dizem: “Quero ser como ele.” Isso envolve muito mais do que saber mandar. Segundo: ouça as pessoas. A equipe normalmente não vai chegar e dizer: “Você é um mala” ou “Você está sendo sem noção.”
Então, o líder precisa criar formas de ouvir para melhorar.
O líder precisa estudar, se desenvolver e aprender sempre. Eu gosto muito de uma ideia atribuída ao Warren Buffett: acordar todos os dias tentando ser um pouco mais inteligente do que quando foi dormir. O líder não pode achar que já sabe tudo.
Revista Líderes: Que conselhos você daria para quem quer ser um líder digital?
Eduardo Feldberg: Primeiro: faça algo de que você goste. Se você entra na internet só pensando em dinheiro, provavelmente vai desistir quando não der retorno rápido.
Segundo: desenvolva a comunicação. Saber se comunicar bem é importante para qualquer pessoa, seja influenciador, empresário, CLT ou alguém em uma entrevista de emprego.
Terceiro: tenha um diferencial claro. Você precisa saber para quem fala. No meu caso, eu falo para o pobre. Isso orienta tudo: a linguagem, os exemplos, os produtos que aceito divulgar e os que recuso.
Também é preciso autenticidade e persistência. Autoridade digital não nasce da noite para o dia. Ela nasce da confiança acumulada.
Revista Líderes: Em que o Primo Pobre investe hoje?
Eduardo Feldberg: O primeiro investimento é em estudo. Esse é o maior investimento. Falando de investimento financeiro, gosto muito de diversificar. Hoje, aproximadamente, tenho uns 40% em renda fixa, como CDB, LCI, Tesouro Direto e caixinhas. Tenho cerca de 30% em criptomoedas, o que eu considero agressivo e não recomendo para todo mundo. E mais ou menos 30% em renda variável e investimentos em outras moedas, como dólar e euro, além de ações, ETFs, fundos imobiliários e outros ativos.
Também gosto muito de investir em imóveis, terrenos e propriedades. Mas invisto principalmente nos meus próprios negócios, porque são eles que me dão dinheiro para investir. O meu negócio me dá dinheiro; o investimento multiplica o que eu ganho nos negócios.
Revista Líderes: Quais são seus negócios hoje?
Eduardo Feldberg: Hoje tenho a empresa Primo Pobre, que é ligada ao canal, publicidades e merchans. Tenho a Feldberg Serviços, ligada às palestras. Tenho o Pobre Show, meu programa de entrevistas. Tenho uma produtora audiovisual na Lapa, em São Paulo. Tenho uma incorporadora, que em breve deve lançar seu primeiro empreendimento.
Essa incorporadora terá um diferencial: todo prédio que construirmos terá, no mínimo, uma unidade doada. Também tenho participação em outras empresas, como a Livar, além de outros negócios em que sou sócio.
No total, são nove negócios: cinco meus e quatro em que sou sócio.
Jogo rápido com Eduardo Feldberg
Dinheiro é… Liberdade.
Maior erro financeiro? Investir em criptomoeda sem estudar. Caí em uma plataforma golpista.
Liderança é… Influência.
Uma atitude que muda a vida financeira? Disciplina.
O que o dinheiro não compra? Ele compra muita coisa, mas não garante paz.
Autoridade digital se constrói com… Autenticidade e persistência.
Influenciador de verdade é… Aquele que transforma vidas beneficamente.
Humor é… Alegria.
Primo Pobre em uma palavra? Autenticidade.
Meu legado será… Ser lembrado como uma pessoa que conseguiu transformar vidas.
Prosperidade é… Ser bem-sucedido em ajudar pessoas e transformar vidas.
Como quero ser lembrado daqui a 10 anos? Como o Primo Pobre, mas também como alguém com um instituto enorme, referência no Brasil, fazendo muitos projetos sociais e transformando vidas.
Deus é… Tudo. Meu melhor amigo, um bom pai, aquele em quem confio, aquele que instrui, corrige e é soberano sobre todas as coisas.
Uma leitura essencial? A Bíblia. Em finanças, A Psicologia Financeira, de Morgan Housel.
Sobre o entrevistador

Prof. Douglas De Matteu, PhD é CEO do Grupo IAPerforma e editor-chefe da Revista Líderes. Administrador, professor universitário, investidor, jornalista e escritor.