Por Douglas De Matteu, PhD
Entrevista com Mônica Hauck e Alê Garcia, publicada originalmente na edição 9 da Revista Líderes — julho/agosto de 2025. Os cargos, números e planos citados correspondem à época da entrevista.

Em um cenário empresarial que exige cada vez mais agilidade e foco no capital humano, a Revista Líderes tem a honra de apresentar uma conversa exclusiva com dois dos nomes à frente de uma das HR Techs mais promissoras do Brasil: Mônica Hauck e Alê Garcia, fundadores e CEOs da Sólides. Reconhecida por sua plataforma estratégica e integrada, que combina tecnologia avançada com um toque humano para capacitar empresas a crescerem e profissionais a inovarem, a Sólides recebeu um dos maiores aportes de investimento na América Latina, evidenciando seu alto potencial e impacto. Nesta entrevista, mergulharemos na trajetória pessoal e profissional de Mônica e Alê, desvendando como suas complementaridades impulsionaram a criação de uma solução que está revolucionando a gestão de pessoas e, consequentemente, o futuro do trabalho no país.
Revista Líderes: Para iniciar, Mônica, quem é você e qual a sua trajetória?
Mônica Hauck: Bom, primeiramente, sou mãe da Catarina, que acabou de fazer 18 anos, e do Heitor, que fará 13. Esse é o meu trabalho principal. Minha formação é em História, com pós-graduação em Culturas Políticas, ou seja, toda em Humanas. Curiosamente, sempre trabalhei com tecnologia, de uma forma bastante não convencional.
Meu perfil comportamental predominante é executora com comunicadora. Isso significa que tenho muita energia, gosto de dinamismo, sou orientada a metas e lido bem com pressão. Na Sólides, sou a pessoa que está mais à frente no relacionamento com pessoas, na parte da extroversão.
Revista Líderes: E você, Alê, poderia nos contar quem é e como complementa a Mônica?
Alê Garcia: Eu sou a pessoa que gosta mais do computador! Minha formação é em Estatística, com um perfil muito mais técnico. No nosso sistema de perfil, sou um analista planejador extremamente alto, com grande habilidade de decodificar e codificar informações.
Essa complementaridade com a Mônica foi uma força que soubemos usar muito bem. Muitas vezes, em sociedades, as pessoas se irritam com perfis opostos, mas nós entendemos o poder dessa diferença. A Sólides vem muito dessa dinâmica de ataque e defesa ao mesmo tempo; eu sou o que joga na defesa, organizando as coisas “na cozinha”.
Revista Líderes: Como surgiu a ideia da Sólides, unindo perfis tão diferentes em uma área que junta tecnologia, dados e pessoas?
Mônica Hauck: A Sólides é fruto de uma experiência que o Alê viveu. Quando jovem, ele teve contato com ferramentas de perfil comportamental que eram muito caras e inacessíveis no Brasil, sendo principalmente americanas. Essa ferramenta teve um impacto enorme na vida dele, trazendo um ganho pessoal muito forte.
Nós já éramos casados e tínhamos outra empresa de tecnologia, focada em agronegócio. Um dia, conversando sobre o quão poderosa era essa ferramenta, surgiu a ideia: “Por que não criamos uma ferramenta nacional, 100% brasileira e acessível?”. A Sólides nasceu desse desejo de democratizar o acesso a uma tecnologia que impactou a vida do Alê. Passamos alguns anos desenvolvendo-a nas horas vagas.
Alê Garcia: Complementando a Mônica, minha experiência pessoal com fobia social e ansiedade, em um país tão caloroso como o Brasil, foi limitante. O contato com essas teorias comportamentais, na época em que eu decidia minha carreira, transformou meu caminho. Depois de 4 anos de pesquisa e desenvolvimento de algoritmos próprios, conseguimos uma ferramenta com alta acurácia que começou a gerar grande impacto. A Sólides nasceu como um spin-off de outro negócio e se tornou muito empolgante, levando-nos a mergulhar de cabeça na gestão humana e, consequentemente, na gestão de pessoas corporativa.
Revista Líderes: É visível o amor de vocês pelo que fazem. Qual foi o ponto de virada, aquele momento em que perceberam que a Sólides decolaria, ou, talvez, um momento de incerteza?
Mônica Hauck: Eu, sinceramente, acredito pouco em “ponto de virada” único. Acho que, no nosso caso, foi mais um caminhar constante, um dia após o outro, conhecendo a realidade do RH e do mercado. Nossa estratégia sempre foi muito focada. Energia é um recurso limitado; concentrá-la aumenta a força, dispersá-la a enfraquece. Optamos por concentrar toda a nossa energia na Sólides, sem ter um “plano B”.
Fomos nos apaixonando pelo RH brasileiro, compreendendo suas necessidades. Percebemos uma enorme oportunidade, pois, embora houvesse muita carência na gestão de pessoas no Brasil, o impacto que poderíamos gerar era gigantesco. Sempre tivemos o desejo de democratizar o acesso a essa tecnologia. As ferramentas existentes eram restritivas, caras, e exigiam formação complexa para interpretação.
Nossa pegada sempre foi: “Todo mundo tem direito à informação, tem que ser simples”. Então, além de desenvolver a tecnologia, tivemos que investir muito na educação do RH, pois ele não estava pronto. Isso exigiu escolhas, e nos engajamos completamente com a causa da gestão de pessoas.
Alê Garcia: Mônica mencionou o “chavão” que sempre usamos em nossos pitchs pelo mundo: “Pessoas são contratadas pelo currículo e demitidas pelo comportamento”. É um ponto chave de gestão de pessoas, mas que é negligenciado. No mundo, somos o único player que usa hard skills e soft skills no mesmo lugar para direcionar a gestão de pessoas. Isso é inovador e impactante. Medimos uma queda nítida de rotatividade nas empresas clientes, o que se traduz em um ROI de 15 vezes, ou seja, o software se paga 15 vezes. A empresa nem precisa ter orçamento para a Sólides, nós geramos esse orçamento.
Mônica Hauck: Em relação à “revolução silenciosa”, estamos mostrando às empresas que a gestão de pessoas estratégica pode ser a diferença entre abrir ou fechar as portas. Nos primeiros anos, investimos muito em educação, mostrando que a gestão de pessoas eficiente tem um ganho financeiro objetivo, que ela muda e fortalece o negócio. Saímos de um ambiente onde a gestão de pessoas era intangível para algo completamente tangível. Ao mostrar a curva de queda de rotatividade e o custo economizado, provamos por A+B que geramos bilhões de reais em economia para as empresas clientes, em um país onde se perde mais de 500 bilhões por ano com rotatividade.
Revista Líderes: Como professor de RH, digo que a área nunca será estratégica sem tecnologia. Vocês têm uma ferramenta que, na minha percepção, transforma o RH em estratégico. Mas, Mônica, Alê, quanto custa para um RH de uma pequena ou média empresa começar a usar essa tecnologia de ponta?
Mônica Hauck: Não custa nada, se você considerar o ROI! Se há um retorno tão grande, o RH, que muitas vezes não tem orçamento, não precisa se preocupar. A gente diz: “Sua rotatividade vai cair, você vai reduzir a rescisão que paga, vai aumentar a produtividade, e você vai pagar com isso”. E tem dado certo. Nossa precificação é por colaborador, tornando-a acessível. Temos clientes com 5, 10, 15 colaboradores. Conseguimos atender de forma muito democrática, pois o valor cabe no bolso da pequena empresa.
Revista Líderes: A Sólides recebeu um aporte de 530 milhões e projeta 1 bilhão de receita para 2028. Como se cresce tanto assim?
Mônica Hauck: Crescemos tendo um plano consistente e não buscando receita milagrosa. A Sólides é fruto de um trabalho consistente e de uma obsessão extrema pelas coisas do dia a dia, que são ordinárias e que normalmente as pessoas negligenciam. Nossa história é de uma pequena empresa que cresceu com uma execução muito disciplinada, fazendo o ordinário muito bem feito todos os dias. Ao mesmo tempo, temos uma visão e ambição de futuro. Hoje, 8 de cada 10 pessoas contratadas no Brasil são por uma pequena e média empresa, então estamos em um mercado relevante. Embora já tenhamos 43.000 clientes, estamos apenas começando, há 3 milhões de empresas a serem alcançadas. É uma combinação de valorizar a execução diária, ter disciplina em receita e despesa para ser sustentável. Tudo o que falamos que iríamos fazer, nós fizemos. Essa consistência e disciplina, aliadas à ambição de conquistar esse mercado, são a chave. Consistência é a nossa palavra.
Alê Garcia: Consistência e execução.
Revista Líderes: Alê, como o homem da tecnologia, como a Sólides vê e aplica a Inteligência Artificial e como visualizam o futuro?
Alê Garcia: Implementamos no produto várias ferramentas de copilot para auxiliar na geração de feedback, registro de ocorrências, criação de PDI (Plano de Desenvolvimento Individual).
Isso ajuda muito na velocidade e agilidade para o RH, como se ele tivesse um time maior. Geralmente, o RH é uma área de backoffice que não recebe tanto investimento, e a IA aumenta a força do time existente. Não expomos isso de forma agressiva no mercado, para as pessoas não se sentirem inseguras. Estamos colocando a IA no dia a dia dos profissionais de RH de forma gradual, porque é um caminho sem volta que potencializa muito nossa capacidade de execução.
Mônica Hauck: Aprendemos que não basta ter a melhor tecnologia; as pessoas precisam usá-la. Tão importante quanto desenvolver uma tecnologia disruptiva é respeitar o tempo de absorção das pessoas. Quantas tecnologias inovadoras não foram para frente porque não ganharam mercado? Respeitar o tempo do cliente, colocando a ferramenta de forma que ele consiga digerir, é crucial. Estamos diante de uma revolução industrial sem precedentes com a IA. Desenvolver tecnologia sem se preocupar com a absorção é um erro.
Revista Líderes: Alê, o que é ser líder para você?
Alê Garcia: Ser líder é dar uma direção clara, comunicar e garantir que essa comunicação seja absorvida pela equipe, e, por fim, suprir as pessoas de competência e ferramental para que consigam atingir os objetivos que colocamos.
Revista Líderes: Mônica, e para você, o que é liderança?
Mônica Hauck: Liderança é conduzir as pessoas do estado em que estão para o estado em que você quer que elas estejam. Isso vale para a companhia e para as pessoas. Para ir do ponto A ao ponto B, há uma responsabilidade muito grande no desenvolvimento e crescimento delas. Você tem que fazer as pessoas crescerem, serem melhores, sempre alinhado ao negócio. Você precisa ser o maestro dessa grande sinfonia, convergindo o crescimento das pessoas e do negócio.
Revista Líderes: Qual a diferença entre um líder que não tem uma ferramenta de perfil comportamental e um que a utiliza?
Alê Garcia: A principal diferença é entender as pessoas, saber como elas funcionam, como são movidas, quais suas ambições e motivações. Para conduzi-las a um ponto que nem elas esperavam, é preciso esse conhecimento. Sem a ferramenta, um líder precisaria de muitos anos de experiência em gestão de pessoas para fazer essa leitura e condução. A ferramenta ajuda a antecipar muito essa capacidade.
Mônica Hauck: As pessoas pensam em liderança e logo em gerir time, mas para mim, a primeira e mais difícil liderança é a de si mesmo. É mais difícil controlar nossos vícios, impulsos e até nossas forças do que as do outro. Quando você tem acesso à ferramenta do autoconhecimento, o ganho como líder é imenso. Se eu me conheço, sei o impacto que gero no outro, onde estão meus riscos e oportunidades. Quem usa a ferramenta não só faz a gestão de si, potencializando seu crescimento, mas também cria uma relação diferente com o time, pois conhece as pessoas e tem mais instrumentos para fazê-las crescer.
Revista Líderes: Quais são os maiores desafios que os líderes enfrentam hoje, com base na experiência da Sólides com mais de 40.000 clientes?
Mônica Hauck: O desafio está muito em ver as soft skills como um instrumento de trabalho. Um líder financeiro ou de tecnologia, por exemplo, domina o Excel e cálculos complexos, mas qual instrumental ele tem para fazer gestão de pessoas? Percebemos uma grande carência não só de conhecimento, mas de ferramentas para que esses líderes, que não são de RH, façam gestão de pessoas. Ainda existe o mito de que gestão de pessoas é coisa do RH, e os líderes não se apropriam desse papel.
Todo líder é um gestor de pessoas. Ficamos felizes em ajudar, pois entregar dados comportamentais acelera o crescimento desses líderes em relação ao time e à própria performance. É crucial que todo gestor de pessoas tenha dados sobre pessoas, e não apenas demográficos, mas comportamentais, que são poderosos para tomar decisões e conduzir o time.
Alê Garcia: A missão da Sólides é transformar as empresas através das pessoas. Nosso olhar é potencializar as pessoas para que gerem resultados para a empresa e, consequentemente, evoluam profissionalmente, pessoalmente e socialmente. É um “ganha-ganha-ganha”.
Revista Líderes: Como a Sólides enfrenta as adversidades? Qual a forma de pensar para lidar com elas?
Mônica Hauck: Com velocidade e pragmatismo. A gente não romantiza as coisas. Avisamos ao time que para crescer, teremos mais problemas, vamos errar bastante. Sabemos que temos que ser rápidos e objetivos para mudar a direção. Problemas e dificuldades sempre existirão; isso é natural do negócio. A diferença está em como. Orientamos o time sobre a importância do resultado, mas também do “como” ele é atingido. Passamos por momentos difíceis, de estresse, mas estamos todos juntos comemorando no final. Problemas virão, mas podemos nos divertir, encará-los de forma saudável e positiva, gerando crescimento. As coisas não serão fáceis, mas serão extremamente recompensadoras.
Alê Garcia: Eu gosto muito de um gráfico que mostra a oscilação entre “sou um sucesso” e “sou um fracasso”. O empreendedorismo é assim. No meio, tem um “continue em frente” (keep going). As adversidades estão aí o tempo todo, mas você aprende a lidar com elas e a controlá-las melhor.
Revista Líderes: Como é gerenciar a Sólides com dois CEOs que são complementares e também um casal?
Alê Garcia: Eu e a Mônica sempre conseguimos nos resolver muito bem, desde quando éramos namorados. Acho que encontramos o jeito rápido. Vida social e trabalho para nós são a mesma coisa. Há uma vantagem em estar casado com a sócia: vocês estão no mesmo tempo de vida, com os mesmos objetivos, e há menos conflito sobre a energia e dedicação para a empresa. Já que os dois estão na mesma missão, muita coisa já está alinhada. As dificuldades que tivemos foram muito em relação a produto, lá atrás, onde saía faísca.
Mônica Hauck: É engraçado. Nunca tivemos discussão sobre filhos ou finanças familiares, isso sempre foi tranquilo. Mas produto… O que aprendemos ao longo do tempo, especialmente para mim, que sou mais intensa, é valorizar aquilo que eu não tenho. Inconscientemente, tendemos a valorizar o que é espelho de nós mesmos. Mas fomos descobrindo a beleza e a riqueza do diferente. Hoje, respeito profundamente o Alê por n motivos, e um deles é que ele tem aquilo que eu não tenho. Isso tem muito valor para mim. O que era para ser um conflito de diferença se torna um ativo; o ser diferente é uma coisa boa, porque entramos numa lógica de complemento. Não somos diferentes, somos complementares.
Na Sólides, nos dividimos por habilidade. O Alê cuida de produto, tecnologia, finanças, porque tem uma racionalidade e raciocínio lógico que eu não tenho. Está tudo bem, não preciso ter tudo. Desde que eu esteja ao lado de quem tem aquilo que eu não tenho. Por outro lado, eu lidero vendas e marketing, pois tenho habilidades que ele não tem. Essa clareza do que cada um tem, acompanhada de admiração e respeito, é muito importante.
Quanto a ser casada, a vida é uma só, não tem separação. É tudo misturado: casa, trabalho, filhos no trabalho, trabalho em casa. Mas funciona bem.
Revista Líderes: Mônica, essa fala é ouro, pois a compreensão da complementaridade é essencial para o sucesso. Para finalizar, quais são os desafios atuais da Sólides e qual mensagem ou legado vocês querem deixar?
Mônica Hauck: Os desafios que temos são comuns a empresas de alto crescimento. Crescemos muito rápido ano a ano, e precisamos correr para organizar processos, para estruturar. O que estava arrumado em um ano, bagunça no outro. Isso exige de nós uma grande capacidade de crescer de forma sustentável, pois é uma maratona, não uma corrida de 100 metros. O legado para nós está muito claro: podemos mudar o ponteiro da economia, deixando as pequenas e médias empresas mais fortes através da gestão de pessoas. Vemos isso nos clientes, cada vez mais fortes, voltando a acreditar que podem crescer, contratar e ir adiante porque têm uma base muito forte que são as pessoas. Acreditamos que conseguimos fortalecer a economia do país através das pequenas e médias empresas.
Alê Garcia: Como desafio, eu acrescentaria o de alcançar o mercado. É um mercado gigantesco. Temos mais de 40.000 clientes, mas um mercado alvo de 3 a 4 milhões de empresas não atendidas. É um desafio alcançar esse mercado e mostrar o valor que geramos. Sobre o legado, para mim, é promover a mesma transformação e o impacto que eu tive e que mudou a minha vida. Levar isso para as pessoas me traz uma satisfação muito grande.
Jogo rápido: Mônica Hauck e Alê Garcia
Meu propósito é…
Mônica Hauck: Crescer e gerar impacto.
Alê Garcia: Crescer e gerar impacto.
Um livro…
Mônica Hauck: Lado difícil das situações difíceis.
Alê Garcia: Rápido e devagar.
Um hobby…
Mônica Hauck: Fazer atividade física, subir a montanha, caminhar e entrar na montanha e ficar lá um pouquinho.
Alê Garcia: Bateria.
Uma verdade inconveniente…
Mônica Hauck: Gestão de pessoas ineficiente. Fecha os negócios.
Alê Garcia: Scrum não funciona.
Liderar é…
Mônica Hauck: Formar pessoas melhores que você.
Alê Garcia: Execução.
O ingrediente mais importante da Sólides…
Mônica Hauck: Energia com humanidade.
Alê Garcia: É ambição com a humanidade.
Sobre o entrevistador

Prof. Douglas De Matteu, PhD é CEO do Grupo IAPerforma e editor-chefe da Revista Líderes. Administrador, professor universitário, investidor, jornalista e escritor.