Por Douglas De Matteu, PhD | Revista Líderes — Edição 8
Entrevista publicada originalmente na edição 8 da Revista Líderes. As informações e os cargos refletem o período da entrevista.

Com sede em Taiwan e presença em mais de 160 países, a Delta Electronics é uma líder em automação industrial, energia e sustentabilidade. Fundada em 1971, a empresa investe continuamente em tecnologia de ponta, contribuindo para a transformação digital e o aumento da competitividade das indústrias ao redor do mundo. No Brasil, a Delta tem expandido sua atuação com soluções personalizadas que vão desde inversores de frequência e CLPs (Controladores Lógicos Programáveis) até sistemas integrados de automação industrial. Em uma conversa inspiradora, Adilson Silva, diretor da Delta na América do Sul, compartilha seus insights sobre liderança, inovação e os desafios de transformar a indústria brasileira.
REVISTA LÍDERES: Para começar, quem é o Adilson Silva, para além do crachá e do cargo na Delta?
Adilson Silva: Eu me vejo como um grande pai – dentro e fora da Delta. É algo de que me orgulho muito. Tenho dois filhos e, apesar de sempre trabalhar bastante, minha esposa sempre foi um pilar na minha vida, uma pessoa muito centrada que me ajuda a manter o equilíbrio. Essa ideia de cuidar e ser exemplo é algo que levo para o trabalho também. Com a minha equipe, tenho uma regra simples: não prometo nada que não possa cumprir – é o mesmo princípio que aplico em casa.
REVISTA LÍDERES: Como começou sua trajetória profissional?
Adilson Silva: Minha jornada começou em 1985, no SENAI. Venho de uma origem humilde – meu pai era metalúrgico e sempre valorizou a educação. O SENAI foi a porta de entrada para mim, oferecendo capacitação técnica que me ajudou a me destacar. Depois, fui conciliando trabalho com a faculdade de Engenharia de Produção. Passei por várias posições até chegar à área comercial, uma transição que foi desafiadora. Eu gostava de "falar com máquinas" e era muito técnico, mas me disseram que eu tinha potencial para liderar. Foi nesse momento que percebi a importância de unir a base técnica com habilidades comerciais e, posteriormente, com marketing. Isso abriu portas que nunca imaginei, levando-me à Delta.
REVISTA LÍDERES: E como foi essa sua linha profissional, desde o SENAI em 1985?
Adilson Silva: Venho de uma geração que procurava formação técnica para se diferenciar. Minha criação foi humilde; meu pai, metalúrgico e operário, sempre pregou o estudo. E deu certo. O SENAI era o melhor que tínhamos na época para direcionamento. Depois, segui a carreira trabalhando e fazendo faculdade paga. Sou formado em Engenharia de Produção. Comecei como técnico em eletrônica, depois montador de painel, fazendo automação. Virei engenheiro de vendas numa multinacional americana em 1998. Foi uma virada de chave grande. Comecei a ter contato com fabricantes de tecnologia e a ver o lado da base: o que é um ambiente de desenvolvimento de produto, a importância de um produto no mercado, o diferencial. Começamos a ver as nuances e diferenças em relação a outros países.
REVISTA LÍDERES: Você construiu sua carreira estudando, crescendo, e foi para a primeira empresa americana. Como foi sua chegada na Delta?
Adilson Silva: Comecei muito básico, como especialista de produto, atendendo telefone, fazendo propostas online e suporte a clientes. Jamais sonhava que seria diretor de empresa, muito menos de uma multinacional asiática. Foi um salto. Fui me preparando. Nunca tive medo de aprender. O que me trouxe à Delta foi fazer as coisas acontecerem no seu tempo. Fiz bem o trabalho de especialista em Suporte Técnico Comercial Interno. Depois, fui para a área comercial externa, numa empresa de alto nível, uma das maiores da automação industrial.
REVISTA LÍDERES: E como foi sair dessa parte mais técnica para a comercial? Isso é uma virada de chave considerável, ainda mais para um engenheiro de métricas, dados e números, para se tornar uma pessoa de pessoas.
Adilson Silva: Até os 28 anos, eu tinha preconceito com a área comercial. Eu não me via nela. Eu fazia bem o que eu sabia fazer: gostava de falar com máquinas, consertava-as todos os dias. Mas sempre soube me expressar bem. Acho que consegui, desse lado cognitivo, juntar a teoria com a prática. Quando me convidaram para a parte comercial, eu me questionei. Mas uma pessoa a quem sou muito grato, Márcio Donangello, disse: "Você consegue, você tem potencial. Vejo potencial para você ser um líder." Ele falou isso há quase 30 anos. Ele tinha razão, né? Foi um salto muito grande. Não foi difícil a transição porque, como disse, nunca tive medo de aprender. Saí de um ambiente que fabricava e usava tecnologia de maneira discreta, e de repente, boom, estava atendendo indústria química, petroquímica, papeleira, automobilística. Comecei a ver que tudo que aprendi na faculdade e no curso técnico era aplicado na fabricação de tudo que usamos: papel higiênico, jornais, veículos, a Coca-Cola, as embalagens de alimentos. Senti isso na prática. Ter esse contraponto técnico e toda a bagagem comercial que adquiri com outras pessoas, desenvolvendo, indo até o cliente e procurando entender como as coisas eram feitas, foi muito enriquecedor.
REVISTA LÍDERES: Pela sua formação, você também tem marketing. Talvez quando foi para a área comercial, sentiu que precisava de mais conhecimento nessa área. Foi por aí?
Adilson Silva: Foi. O marketing tira um pouco daquela sua "crosta" técnica, da sua formação básica do SENAI e engenharia. Ele tira a coisa dura do técnico. Você começa a analisar mercado e a entender outras linguagens mercadológicas, de market share, de tecnologias concorrentes, como fazer similaridade e como levar o produto para o mercado. Isso criou uma transformação muito grande. Fiz também um MBA para adquirir skills administrativos e financeiros. E, mais uma vez, fiz isso sem sonhar em ser diretor, mas uso muito no dia a dia.
REVISTA LÍDERES: Qual foi o seu "segredo do sucesso" para aquele jovem do SENAI que, provavelmente, sem enxergar o futuro, chegou a um cargo de direção em uma empresa asiática de dimensão global? Qual a fórmula que funcionou para você?
Adilson Silva: Acho que o que funcionou para mim foi sempre trabalhar muito sério, entregando resultado, um trabalho muito coerente. Quando cheguei na Delta, saí de um cargo de gerente de filial para diretor comercial. Mas na Delta, não é um diretor puramente comercial; é muito administrativo. Diria que comercial, no meu dia a dia, é 30%; os outros 70% são puramente administrativo e financeiro. Tenho que gerenciar equipe de marketing técnico, engenharia de campo, engenharia de pós-venda, material planning. Tenho que responder pelo P&L da companhia para a América do Sul e fazer toda a estruturação de canais. É uma responsabilidade muito grande. Fazer tudo isso é fruto de muita experiência acumulada. Cheguei a esse cargo aos 48 anos. Se tivesse chegado aos 30 ou 35, acho que não teria durado. Acredito que cheguei no momento certo, quando estava pronto para fazer aquilo. Fui acumulando conhecimento e experiência. Chegar na Delta foi um desafio muito grande, pois a companhia no Brasil precisava se afirmar como marca. O mercado enxergava a Delta como um pequeno asiático. Quando cheguei, disse: "Não, não seremos uma segunda opção, segunda marca de ninguém. Seremos uma marca e vamos nos posicionar entre os grandes." Porque a Delta é muito grande lá fora, ela fabrica para os grandes. Meus grandes concorrentes no mercado são meus clientes.
REVISTA LÍDERES: Você fornece tecnologia para eles?
Adilson Silva: Forneço para muita gente. Por questões éticas não posso falar, mas o mercado sabe disso. Fizemos um trabalho muito forte de construção da marca e da estrutura em toda a América do Sul. Buscamos cada vez mais crescer e, dentro do plano estratégico, atingir públicos diversos. E aí entra um lado pessoal: devolver um pouco para a sociedade aquilo que ela me deu. No final, o que vamos deixar? Aquilo que fizemos bem feito.
REVISTA LÍDERES: Para quem não conhece, quem é a Delta? Sei que são mais de 50 anos de história no coração tecnológico do planeta, perto da gigante TSMC (Taiwan Semiconductor Manufacturing Company), onde imagino que há muitas empresas que fornecem tecnologia para o mundo.
Adilson Silva: Sim. A TSMC, inclusive, é um parceiro e às vezes até um concorrente da Delta, porque a Delta também tem uma divisão de semicondutores. É um grande fabricante asiático taiwanês. Taiwan é uma ilha que há 80 anos tinha sua origem em pescadores, era posse do Japão. Teve uma revolução, se libertou e investiu em educação. Se você for a Taiwan, verá montanhas, pedras, praias, e eles não extraem uma gota de petróleo, não têm um grama de mineral, não plantam um grão de soja, mas têm um dos PIBs que mais cresce hoje no mundo, que está alcançando o PIB do Japão. É lá que a Delta nasceu, em 1971, fruto de um visionário, o Sr. Bruce Chen, engenheiro eletricista. Ele tinha uns 40 anos na época, hoje está com 89. Com 40 mil dólares, iniciou um pequeno negócio para fazer bobinas para sistemas eletrônicos, para filtros elétricos, e isso virou uma escala muito grande.
REVISTA LÍDERES: Para termos uma dimensão, quantos funcionários a Delta tem no mundo?
Adilson Silva: A Delta hoje, no mundo, deve estar beirando 120 mil funcionários. É uma empresa que deve estar faturando na casa dos 15 bilhões de dólares nesse por ano. Ela investe 5% de todo o seu lucro líquido anual em pesquisa e desenvolvimento. É uma empresa familiar, mas com estrutura muito forte, ações na Nasdaq nos Estados Unidos, e é extremamente premiada por trabalhar muito forte a questão de investimento em energias renováveis, produtos mais compactos que dissipam menos temperatura, ecologicamente mais corretos e que possam ser reciclados para uma economia circular.
REVISTA LÍDERES: Você citou a energia mais limpa. A gama de produtos da Delta é muito grande. Quais são os três principais produtos ou segmentos em que a Delta se destaca?
Adilson Silva: Além da energia, que é um braço crescente, temos a divisão de fabricação de sistemas de acúmulo de energia, de BES (Battery Energy Storage) e energia solar. Lembrem-se da Delta por isso. Lembrem-se da Delta na questão de veículos elétricos. Não fabricamos o veículo, mas damos a tecnologia. Fabricamos partes, sistemas de bateria, sistemas de controle, sistemas de carregamento de energia de veículo elétrico. Estamos muito inseridos e com grandes parceiros. É uma área que está explodindo. A automação é uma grande vertical da Delta. Olhamos não só para a automação de chão de fábrica, mas já estamos indo para Digital Twins, inteligência artificial. Temos parcerias muito sólidas com a NVIDIA, pensando na próxima geração de processadores e produtos que vamos lançar. A questão da robotização: estamos crescendo muito forte nesse mercado de robôs. Nossa próxima geração de iBolts, que são os robôs inteligentes que interagem com o ser humano, já está no forno.
REVISTA LÍDERES: Qual a previsão de lançamento?
Adilson Silva: Se você entrar hoje nas nossas redes sociais, verá que na Europa já estamos muito avançados. Temos desenvolvimentos em payload até 25 kg sendo divulgados e comercializados. Diria que no universo de dois a cinco anos, estaremos muito bem posicionados nesse mercado de robô colaborativo de iBolt.
REVISTA LÍDERES: Isso num contexto fabril, ou fora da fábrica também?
Adilson Silva: Fora da fábrica. A questão dos humanoides no dia a dia, teremos robôs no dia a dia. Eles vêm para suprir a falta de mão de obra para atividades importantes ou onde haverá demanda, mas também para o bem-estar das pessoas. Estarão muito associados ao bem-estar. Isso é muito importante. A robótica colaborativa e a automação inteligente vão ao encontro do que estamos falando.
REVISTA LÍDERES: Dentro da sua experiência em várias indústrias, que recado você dá para as indústrias brasileiras?
Adilson Silva: Algumas indústrias já estão no caminho muito certo, como a automobilística, que sempre é de vanguarda na automação. Sempre dá para melhorar. Mas outras, como a metal mecânica, fabricantes de máquinas, precisamos agregar muito valor aos nossos produtos. O que gera diferencial, o que faz os países enriquecerem, é o quanto de inteligência você coloca no produto.
REVISTA LÍDERES: A Delta consegue ser esse parceiro para agregar valor hoje para as indústrias? Há algum caso de implantação que gerou um salto?
Adilson Silva: A Delta é um parceiro para as indústrias darem o passo adiante em tecnologia, solução e melhora de produtividade e performance. Posso dizer que sim, em mercados como agronegócio, fabricação de máquinas para indústria de embalagens, indústria de alimentos. Estamos fazendo muita coisa boa que tem impactado bastante na produtividade e na melhora da qualidade dos produtos. Quando falo diferencial, vou um pouco além. A Ásia enriqueceu tanto porque o grande valor é a inteligência que eles colocam em tudo que fazem. Se somos bons em produzir alimentos, temos que colocar muita inteligência, reservar isso para a nossa indústria. Se não conseguimos atrair indústrias de semicondutores, pelo menos temos que ser muito bons em extrair minério com excelência e transformá-lo no melhor minério possível, vendendo pelo preço justo. É o que países asiáticos e desenvolvidos fazem.
REVISTA LÍDERES: Indústria 5.0, 4.0… imagino que aqui no Brasil estamos vivendo de 3 para 4 ainda, com um grande desafio de as pessoas incorporarem a 4. Você viu a indústria 5.0 lá fora
Adilson Silva: Exato, é o que está acontecendo lá. Na Asia há uma perspectiva de energia mais limpa, materiais mais ecologicamente adequados, mais sustentáveis. Mas é um desafio trazer isso para o Brasil, porque o Brasil ainda não chegou nem na quarta. Em termos de infraestrutura, ainda temos muito que caminhar.
REVISTA LÍDERES: Como você vê a maturidade desse mercado, das indústrias aqui no Brasil? Há indústrias mais de vanguarda, como o agronegócio, que investem mais?
Adilson Silva: Sim. Hoje, o agronegócio é vanguarda na indústria brasileira, um dos nossos grandes pilares da economia. Para chegar nesse nível de excelência de produtividade, o Brasil é referência global. Há muita tecnologia não só na parte química, biológica e de plantio, mas na automatização de tudo isso. Robótica, inteligência artificial, o conceito de criar lógicas para deixar o campo mais inteligente, isso já é fato. Pegue um sistema de irrigação, por exemplo; a tecnologia por trás é enorme. Ele só falta falar. Ele faz, te informa tudo o que está fazendo, inclusive quantas gotas de água está gastando. Isso leva a um outro nível de consumo, inteligência, precisão e produtividade.
REVISTA LÍDERES: Como a Delta ajuda na automação das indústrias? Muitas vezes, a automação é vista como algo caro e complexo. Existe algum caminho para tornar essa inovação mais acessível? Qual é o ROI desses investimentos?
Adilson Silva: Investir em automação não é caro. Num país como o nosso, se você compara com o valor de um veículo, por exemplo, que pagamos uma fortuna por algo que não oferece 30%, 40% do que um bom veículo fora do Brasil oferece, a automação é muito pequena perto do que se gasta. Para fazer uma boa automação de um processo, uma fábrica, não é um investimento caro. E o ROI é garantido. Você vai conseguir, no mínimo, acima das melhores hipóteses, ter o ROI em um ano e meio, dois. É muito significativo. Se uma máquina tem uma vida útil de sete anos e o equipamento se paga em um ano e meio, são mais cinco anos e meio só de benefícios. É um investimento muito pequeno. São tecnologias acessíveis que dão vida à máquina, fazendo-a executar atividades repetitivas, mas com um bom analista ou engenheiro, você consegue extrair ainda mais.
REVISTA LÍDERES: Vocês vendem a solução no sentido de equipamentos ou um projeto de automação completo, analisando e propondo as melhores práticas globais, com assistência?
Adilson Silva: Fazemos das duas formas. Via de regra, não temos escala para entregar tantos projetos quanto o mercado às vezes pede. Então, entregamos a solução dimensionada para que o cliente ou parceiro integrador, ou empresas de engenharia, implementem a tecnologia. Mas também temos capacidade técnica para montar os equipamentos dentro de um sistema e entregar a solução funcionando. É a vontade do cliente, dependendo da demanda ou da minha capacidade de entrega de solução. Prezamos muito por fazer as coisas bem feitas. A Delta trabalha com muita qualidade. Quem adquire Delta sabe que não terá problemas com a qualidade do produto.
REVISTA LÍDERES: A qualidade, então, é indiscutível?
Adilson Silva: É indiscutível. Se eu fosse viver hoje na Delta de reparo de produto, eu não estaria aqui. É acessível, tem alta durabilidade, alta qualidade e ainda tem toda uma preocupação com a questão energética.
REVISTA LÍDERES: Como vocês estão se preparando para a questão dos carros elétricos com os produtos relacionados à solução de energia? É mais focado na indústria ou já pensam no varejo para residências, postos de energia?
Adilson Silva: Tudo isso já é uma realidade na Delta. Já temos solução completa para cidades inteligentes (smart cities): residências com sua própria geração de energia, veículos elétricos, eletropostos para recarga, e sistemas de geração eólica ou solar.
REVISTA LÍDERES: Vocês já têm essa tecnologia implementada no Brasil?
Adilson Silva: Em alguns clientes, sim. Mas no Brasil, o negócio está começando. Europa, Ásia e Estados Unidos já estão muito difundidos. Já temos bons cases e escala.
REVISTA LÍDERES: Com a integração de automação, IA, Internet das Coisas e gestão energética, tudo se alinha aos princípios da indústria do futuro. Como você visualiza todas essas tecnologias e o futuro da empresa? E se a indústria não investir, o que pode acontecer?
Adilson Silva: Se ela não investir, vai ser sucateada, outras tecnologias ou concorrentes virão e tomarão seu lugar. Tomo como exemplo a Delta. Estou há sete anos na Delta, e vou duas vezes por ano para a Ásia. Temos grandes fábricas em Taiwan, China, Índia, Tailândia. O caso da fábrica na China, em Wujiang, onde são fabricados quase 80% dos produtos de automação: cada ano que volto lá, não é a mesma fábrica.
REVISTA LÍDERES: Conte-nos, como é essa fábrica chinesa? É o que vemos na mídia, tipo uma fábrica da Foxconn, tudo apagado, robôs trabalhando? Isso é real?
Adilson Silva: Isso é uma parcela. Aquela fábrica está mais voltada para semicondutores. Mas uma fábrica de montagem de componentes de automação, essa nossa fábrica, por exemplo, há cerca de 10 anos, tinha 40 mil funcionários. Era praticamente uma cidade. Hoje, é uma fábrica com 7 a 10 mil funcionários. Não estamos eliminando empregos, estamos deslocando pessoas para funções mais tecnológicas. São fábricas e ambientes que se transformam e criam um novo conceito de fabricação. Este ano, há uma grande célula montando inversor de frequência com oito robôs. No ano que vem, pode ter certeza, haverá 20 robôs, e a produtividade terá crescido exponencialmente. A fábrica do futuro será muito automatizada, dependendo do processo. Demandará profissionais extremamente qualificados. A questão dos serviços ao redor vai crescer. Terá mais gente com mais dinheiro podendo investir em outras coisas e ter tempo para outras atividades. É um caminho bastante interessante.
REVISTA LÍDERES: O que se faz para uma indústria ser competitiva e leve hoje?
Adilson Silva: Você melhora processos, incentiva a tecnologia, incentiva o ensino. As instituições de ensino se aproximam do ambiente das indústrias. Você cria um movimento onde os governantes também são inseridos e se responsabilizam em ser parte de um processo. Deveríamos ter essa grande discussão entre empresários, instituições de ensino, governo: Qual é o nosso plano de negócios para o nosso país? Faço planos de cinco anos para a empresa em que trabalho, sempre renovando a cada ano. Estamos sempre olhando para o futuro. O futuro é o que acontece para a gente hoje. Se você não projeta e não executa, ele não acontece. Precisaríamos de uma escala maior da sociedade participando dessas transformações.
REVISTA LÍDERES: Quando você está nesse seu planejamento para 5 anos, o que vê de diferente que pode compartilhar?
Adilson Silva: Quando olho para um projeto de 5 anos, tento excluir algumas variáveis que vão acontecer e coloco outras. Mudanças de cenário econômico ou político, por exemplo. Tenho que olhar para onde as pessoas vão e o que precisarão no futuro. Vejo as pessoas precisando se alimentar todo dia, cuidar da saúde, querendo mais qualidade de vida, mais tempo para lazer e família. Isso só vamos conseguir gerando riqueza. E riqueza, como disse, geramos com conhecimento.
REVISTA LÍDERES: O que vai acontecer lá na frente?
Adilson Silva: As pessoas têm que se preparar.
REVISTA LÍDERES: E para quem é da indústria e está vendo essa transformação, em que deve se preparar? Quais competências são importantes, sejam hard skills ou soft skills?
Adilson Silva: Diria que vai um pouco além do ambiente hardware. O profissional que vai permanecer no mercado por muito mais tempo tem que entender muito bem essa transformação digital e a inteligência artificial, pois ela não vai atingir apenas médicos e advogados; na indústria, ela vai interferir bastante. Gerará muitos dados, muita informação, mas precisará de pessoas que interpretem e tomem decisões, porque a máquina faz o que sabe, mas adquire conhecimento pelos inputs que você dá a ela. Na indústria, a digitalização, viver realmente uma Indústria 4.0 e ir para uma 5.0, é uma transformação necessária.
REVISTA LÍDERES: Com sua experiência internacional e comercial, como você prepara sua equipe de vendas? Como gerencia, treina e estimula uma equipe que, na América do Sul, representa uma das principais empresas do setor?
Adilson Silva: Tudo é baseado em plano de negócio. Não consigo criar um caminho sem colocar no papel. Tudo é baseado em budget, verbas e metas. Isso é desdobrado para cada funcionário em plano de negócio, em KPIs de grupo e KPIs individuais, para buscarmos o coletivo. Sempre coloco que somos parte de um time. A Delta América do Sul hoje é um composto muito grande, com 350 funcionários diretos. São empregos de níveis de engenharia, muitos. São profissionais valiosos em que investimos no longo prazo. É uma empresa que olha para o longo prazo. O investimento em formação, capacitação e manutenção é muito grande.
REVISTA LÍDERES: Imagino. É uma venda consultiva. Quando se vende um projeto, está-se vendendo um problema para resolver. E tem que resolver bem resolvido, pois a coisa tem que funcionar, certo?
Adilson Silva: Exatamente. Entregar a disponibilidade é uma responsabilidade muito grande.
REVISTA LÍDERES: Se você tivesse que explicar o que é liderança, como explicaria?
Adilson Silva: Liderança é você aprender e ser exemplo.
REVISTA LÍDERES: Quais são as habilidades fundamentais para um líder da indústria nessa área de tecnologia?
Adilson Silva: As competências técnicas (hard skills) têm que ser bem fundamentadas. A pessoa tem que buscar boa formação e qualificação, complementar com atividades periféricas como marketing e administração, para enxergar o todo. Óbvio, temos o engenheiro que gosta só de desenvolver produto, que é uma minoria, são gênios. Mas temos uma grande massa que é criativa e tem capacidade para empreender. O jovem deve empreender, e devemos incentivar o empreendedorismo das pessoas que têm iniciativa e capacidade. Pensando nos soft skills, pegar o que é importante para o negócio, para a atividade, e buscar mentorias, apoio, e continuar trabalhando para complementar.
REVISTA LÍDERES: Como você lida com adversidades? Pode nos dar um exemplo de uma situação e como a resolveu?
Adilson Silva: A adversidade é o dia a dia de todo líder, de todo diretor. Trabalhamos com pessoas, clientes, sistemas produtivos, teremos problemas todos os dias. Você tem que ter a cabeça muito tranquila. O segredo para ter a cabeça tranquila quando as coisas estão "pegando fogo" é: não fuja dos problemas, corra para as coisas. Tenha uma vida equilibrada: pessoal, espiritual, a saúde tem que estar bem. Você tem que cuidar do conjunto.
REVISTA LÍDERES: Quais são os ingredientes essenciais para uma empresa conseguir crescer e para alguém chegar ao cargo que você chegou, com a responsabilidade que você tem hoje?
Adilson Silva: Você tem que ser suportativo, mas tem que ser suportado. Não existe vitória que seja fruto unicamente da pessoa.
São componentes, são pessoas. Quando olho para minha chefia, em Taiwan, Estados Unidos ou aqui no Brasil, tenho suporte e a confiança deles. Como se consegue a confiança das pessoas? Prometa e entregue. E se não for entregar, não prometa. Simples. Essa é uma regra básica para todo profissional que quiser crescer numa carreira. Não vá além daquilo que não vai entregar. E entenda as etapas, porque tudo tem um processo de maturação. Vou fazer uma crítica ao que acontecia nos anos 2000: havia uma vertente de que as pessoas tinham que mudar muito de emprego e ser gerente aos 30 anos. Criou-se uma paranoia de pular de galho em galho, sem criar experiência, buscando ser diretor aos 30. Nada contra ser diretor aos 30, se souber quais são os ingredientes por trás de um ser humano. Você vai liderar pessoas, indústrias, responder por números. Tem que entregar um profit (Lucro) no final do ano. Como você lida com tudo isso aos 30 anos? Não se pensou no tipo de ser humano capaz de fazer isso. Aos 40, já há muita gente preparada. Aos 45, são outros momentos de vida.
Jogo rápido
Família é: Base de tudo.
Delta é: Um fornecedor global que transforma indústrias com inovação.
Deus: Tudo.
Tecnologia é: Ferramenta para melhorar a qualidade de vida.
Um livro: O Poder do Hábito.
Seu propósito: Deixar um legado positivo.
Sobre o entrevistador

Prof. Douglas De Matteu, PhD é CEO do Grupo IAPerforma e editor-chefe da Revista Líderes. Administrador, professor universitário, investidor, jornalista e escritor.