Por Prof. Douglas De Matteu, PhD | Revista Líderes — Edição 14
Artigo publicado originalmente na edição 14 da Revista Líderes. Os dados e as referências refletem o período da publicação.

A produtividade é um dos principais indicadores para entender por que alguns países conseguem crescer mais, pagar melhores salários e sustentar empresas mais competitivas. Em termos simples, produtividade significa quanto valor é gerado por hora trabalhada.
Segundo a base Our World in Data, com dados da Penn World Table 11.0, a produtividade por hora trabalhada mede o PIB dividido pelo total de horas trabalhadas, ajustado por inflação e diferenças de custo de vida entre países. A base mais recente cobre o período até 2023.
Esse ponto é importante porque o debate sobre produtividade no Brasil, muitas vezes, cai em uma armadilha: achar que o problema está apenas no trabalhador. Não está. A produtividade depende de educação, tecnologia, gestão, infraestrutura, processos, inovação, ambiente de negócios e qualidade da liderança.
Comparação internacional da produtividade
A comparação aproximada da produtividade por hora trabalhada em 2023, em dólares internacionais de 2021 e ajustados por paridade de poder de compra, ajuda a dimensionar o desafio. Os números servem para comparação entre países, e não como salário por hora.
- Estados Unidos — cerca de US$ 80/hora: alta produtividade, tecnologia, capital e inovação.
- Alemanha — cerca de US$ 75/hora: indústria forte, qualificação e eficiência operacional.
- França — cerca de US$ 74/hora: alta produtividade, mesmo com jornada menor.
- Reino Unido — cerca de US$ 66/hora: economia avançada e forte setor de serviços.
- Japão — cerca de US$ 53/hora: alta organização, mas crescimento mais lento.
- Coreia do Sul — cerca de US$ 50/hora: forte avanço tecnológico e industrial.
- México — cerca de US$ 24/hora: produtividade menor e alta carga de horas trabalhadas.
- Brasil — cerca de US$ 20/hora: baixa produtividade e crescimento lento.
Fonte-base: Our World in Data/Penn World Table 11.0, indicador de produtividade por hora trabalhada, atualizado em outubro de 2025 e com série até 2023.
O que os números revelam
O Brasil produz, por hora trabalhada, muito menos do que as economias mais avançadas. Isso não significa que o brasileiro trabalhe pouco. Pelo contrário, em muitos casos trabalha muito, mas com menos tecnologia, menos infraestrutura, menos qualificação aplicada, mais burocracia e processos menos eficientes.
A diferença entre Brasil e países como Estados Unidos, Alemanha e França não está apenas no esforço individual. Está na capacidade de transformar tempo em valor. Um profissional com boas ferramentas, clareza de prioridades, processos bem desenhados, dados, tecnologia e liderança qualificada produz muito mais do que alguém submetido a retrabalho, improviso, excesso de reuniões, baixa autonomia e falta de direção.
O Brasil está melhorando?
Os dados recentes mostram uma melhora muito limitada. Segundo o Observatório da Produtividade Regis Bonelli, da FGV IBRE, a produtividade do trabalho no Brasil cresceu apenas 0,4% em 2025, considerando as horas efetivamente trabalhadas. Pelas horas habituais, avançou 0,5%; pela população ocupada, 0,6%.
O próprio FGV IBRE mostra que o Brasil teve crescimento mais forte em 2023, mas esse avanço perdeu força em 2024 e 2025. Em 2023, a produtividade por hora efetivamente trabalhada cresceu 2,3%; em 2024, apenas 0,1%; e em 2025, 0,4%. No primeiro trimestre de 2026, a produtividade medida por horas efetivamente trabalhadas recuou 0,5% em relação ao mesmo período de 2025.
Por que a produtividade brasileira é baixa?
- Educação pouco conectada à prática. Muitos profissionais estudam, mas nem sempre conseguem aplicar o conhecimento para resolver problemas reais, melhorar processos e gerar inovação.
- Baixo investimento em tecnologia. Sem automação, dados, sistemas e ferramentas adequadas, o trabalhador gasta energia em tarefas repetitivas e pouco estratégicas.
- Gestão ineficiente. Empresas com excesso de reuniões, pouca clareza de metas, retrabalho e comunicação ruim perdem produtividade todos os dias.
- Informalidade e baixa qualificação contínua. A informalidade reduz investimento em treinamento, segurança, padronização e desenvolvimento.
- Ambiente de negócios complexo. Burocracia, insegurança jurídica, custo tributário e infraestrutura deficiente reduzem a eficiência das empresas.
- Pouca cultura de melhoria contínua. Em muitas organizações, erros se repetem, processos não são revisados e boas ideias dos colaboradores não são aproveitadas.
O papel do líder na produtividade
A produtividade não é apenas uma agenda econômica. É também uma agenda de liderança.
O líder contribui diretamente para a produtividade quando cria um ambiente em que as pessoas sabem o que fazer, por que fazer, como fazer e com quais prioridades. Equipes improdutivas muitas vezes não são formadas por pessoas incapazes, mas por pessoas mal direcionadas, mal treinadas ou presas em processos confusos.
Um líder que deseja aumentar a produtividade precisa atuar em cinco frentes:
- Dar clareza de prioridades. Quando tudo é urgente, nada é estratégico. O líder precisa esclarecer quais entregas geram mais valor e quais atividades podem ser eliminadas, simplificadas ou automatizadas.
- Reduzir retrabalho. Comunicação falha, briefing incompleto, ausência de padrões e falta de acompanhamento consomem tempo e energia.
- Desenvolver competências. Treinamentos, mentorias, feedbacks e aprendizagem prática ajudam o colaborador a tomar melhores decisões, usar melhor a tecnologia e resolver problemas com mais autonomia.
- Usar tecnologia com inteligência. Automação, inteligência artificial, dashboards, CRM, sistemas de gestão e análise de dados podem liberar tempo para atividades de maior valor.
- Criar uma cultura de melhoria contínua. Pergunte: o que pode ser mais simples? Onde perdemos tempo? Que processo gera retrabalho? Que tarefa pode ser automatizada? Que decisão pode ser tomada com dados?
“Liderar produtividade é criar condições para que pessoas comuns consigam entregar resultados extraordinários.”
A produtividade do brasileiro não será resolvida apenas com mais esforço individual. O Brasil precisa de educação aplicada, tecnologia, inovação, infraestrutura e gestão mais eficiente. Mas, dentro das empresas, o líder tem um papel decisivo.
Liderar produtividade é transformar esforço em valor. É substituir improviso por método, excesso de tarefas por foco, cobrança vazia por desenvolvimento e controle por inteligência de gestão.
O verdadeiro desafio do Brasil não é simplesmente trabalhar mais. É trabalhar melhor, liderar melhor e gerar mais valor por cada hora dedicada.
Sobre o autor

Prof. Douglas De Matteu, PhD é CEO do Grupo IAPerforma e editor-chefe da Revista Líderes. Administrador, professor universitário, investidor, jornalista e escritor.