
Por Felipe Picarelli · Revista Líderes · Edição 13, março/abril de 2026, páginas 24–27.
Por que compreender motivações — e não apenas comportamentos — se tornou uma competência essencial na liderança contemporânea.
Em um ambiente corporativo cada vez mais exigente, líderes são constantemente desafiados a tomar decisões rápidas, gerir conflitos e manter equipes engajadas sob pressão. Ainda assim, mesmo com acesso a ferramentas, metodologias e informações em abundância, muitos enfrentam um cenário recorrente: conflitos persistentes, desgaste emocional e dificuldades relacionais que impactam diretamente os resultados.
Esse cenário revela uma mudança importante no contexto organizacional: o principal desafio das empresas deixou de ser técnico — e passou a ser humano.
Pesquisas recentes sobre comportamento organizacional indicam que a maior parte dos conflitos no ambiente corporativo tem origem relacional, e não técnica (Crucial Learning, 2021). Em outras palavras, não se trata apenas do que precisa ser feito, mas de como as pessoas percebem, interpretam e reagem umas às outras. Diante dessa realidade, surge uma pergunta central para a liderança contemporânea: o que realmente está por trás dos comportamentos dentro das organizações?
O limite das ferramentas tradicionais — e sua importância
Ferramentas como DISC e MBTI desempenham um papel relevante nesse contexto. Elas oferecem leituras consistentes sobre estilos de comportamento, comunicação e preferências individuais, contribuindo significativamente para a melhoria das relações e da dinâmica de equipes.
São instrumentos valiosos, especialmente para ampliar a consciência sobre diferenças individuais e promover ajustes práticos no dia a dia organizacional.
No entanto, à medida que os desafios se tornam mais complexos, uma nova necessidade emerge: não basta identificar comportamentos. É preciso compreender o que os sustenta.
Essas ferramentas conseguem mapear com clareza como as pessoas tendem a agir, se comunicar e decidir. Mas, em muitos casos, não acessam diretamente a camada mais profunda que responde a uma questão decisiva: qual é a motivação que está por trás desse comportamento?
E é justamente essa motivação que se torna mais evidente — e mais determinante — em momentos de pressão, conflito e incerteza.
O problema raramente é a tarefa
No cotidiano das organizações, líderes costumam direcionar sua atenção para aquilo que é visível: resultados, entregas, desempenho, processos e comportamentos observáveis.
Esses elementos são fundamentais para a gestão. No entanto, representam apenas a superfície. Por trás de cada ação existe uma estrutura invisível que governa o comportamento humano:
- motivações profundas que orientam decisões
- medos centrais que influenciam reações
- estratégias de proteção desenvolvidas ao longo da vida
- padrões automáticos que se repetem sem percepção
- interpretações subjetivas sobre as intenções dos outros
Essa dimensão invisível sustenta tanto a colaboração quanto o conflito dentro das organizações.
A emergência de uma nova competência: a inteligência relacional
À medida que esse cenário se intensifica, torna-se evidente que a liderança precisa desenvolver uma nova capacidade.
Inteligência emocional, segurança psicológica e liderança adaptativa não são iniciativas isoladas. São partes de um mesmo ecossistema que sustenta aquilo que hoje se consolida como uma competência crítica: a inteligência relacional.
Sem ela, líderes reagem.
Com ela, influenciam ambientes complexos com mais consciência, precisão e consistência.
Nesse contexto, o desenvolvimento da liderança deixa de ser apenas técnico ou comportamental. Ele passa a exigir um nível mais profundo de compreensão sobre como cada indivíduo percebe, interpreta e responde ao mundo ao seu redor.
O Eneagrama como ferramenta de compreensão profunda
É nesse ponto que o Eneagrama se insere de forma estratégica.
Ele não substitui outras abordagens de desenvolvimento. Pelo contrário, atua como uma base que amplia a compreensão sobre aquilo que sustenta todas elas.
O Eneagrama é:
- um mapa do desenvolvimento humano
- uma ferramenta que revela motivações, medos e padrões de atenção
- um caminho de ampliação de consciência
- um convite à observação, não ao julgamento
E não se propõe a ser:
- um rótulo fixo
- um teste comportamental tradicional
- um diagnóstico ou avaliação de valor
Embora ofereça uma leitura profunda do comportamento humano, o Eneagrama não substitui práticas fundamentais de gestão, cultura organizacional ou estratégia. Sua força está em complementar essas dimensões, trazendo consciência sobre aquilo que, muitas vezes, permanece invisível.
Mais do que explicar comportamentos, ele revela os padrões que limitam a capacidade de desenvolver inteligência relacional — e os caminhos possíveis para expandi-la.
Em muitos contextos organizacionais, ferramentas são utilizadas como atalhos para compreensão rápida de pessoas. No entanto, sem aprofundamento, existe o risco de transformar instrumentos de desenvolvimento em mecanismos de simplificação — e, por vezes, de rotulação.
Personalidade e Ser: o eixo central da liderança consciente
O Eneagrama propõe uma distinção essencial entre personalidade e Ser.
A personalidade é formada por padrões adquiridos: formas automáticas de reagir, crenças e estratégias de proteção. Ela tende à repetição, especialmente sob pressão.
O Ser, por outro lado, está relacionado à presença, à consciência e à capacidade de agir com clareza e escolha.
Na prática da liderança, isso se traduz em uma pergunta fundamental: o líder está conduzindo suas ações — ou está sendo conduzido por padrões automáticos?
O desafio não está em possuir uma personalidade, mas em se confundir com ela.
Por que o Eneagrama transforma a liderança
Quando aplicado ao contexto organizacional, o Eneagrama permite compreender que:
- pessoas não reagem aos fatos, mas à forma como os interpretam
- comportamentos semelhantes podem ter motivações diferentes
- conflitos surgem da proteção de necessidades essenciais
Dois líderes podem reagir de forma igualmente assertiva em uma reunião.
Um, movido pela necessidade de manter controle. Outro, pela necessidade de garantir reconhecimento.
Externamente, o comportamento pode parecer o mesmo. Internamente, a motivação é completamente diferente — e isso altera a forma como cada um lida com pressão, conflito e tomada de decisão.
Essa diferença invisível é o que gera dissonância nas organizações.
Do conflito à complementaridade
Quando essas motivações permanecem inconscientes, o ambiente tende ao conflito.
Quando se tornam conscientes, surge a possibilidade de complementaridade.
O outro deixa de ser interpretado como oposição e passa a ser compreendido como alguém que está protegendo algo essencial. Essa mudança transforma relações, decisões e resultados.
Um novo patamar de liderança
A liderança contemporânea exige mais do que gestão de resultados.
Exige a capacidade de compreender o comportamento humano em profundidade.
O Eneagrama oferece um caminho estruturado para que líderes ampliem sua consciência, fortaleçam relações e tomem decisões mais alinhadas.
Na prática, esse desenvolvimento pode começar com perguntas simples:
- O que, nesta situação, estou tentando proteger?
- Essa reação é uma escolha — ou um padrão automático?
- O que muda na minha decisão quando amplio minha percepção sobre o outro?
Mais do que uma ferramenta, é um convite à transformação.
Consideração final
Organizações são formadas por pessoas. E pessoas são guiadas por padrões internos que, quando não compreendidos, limitam resultados e relações.
Em um cenário onde a inteligência relacional se torna uma competência central, o Eneagrama oferece um mapa consistente para essa jornada — um caminho de reconexão com o Ser e de evolução da liderança.
Para líderes que desejam transformar culturas, essa compreensão deixa de ser diferencial. Torna-se essencial.
Sobre o autor

Felipe Picarelli é especialista em desenvolvimento humano e organizacional, com mais de 10 anos de experiência na aplicação do Eneagrama no contexto corporativo. É Certified Narrative Enneagram Teacher (CNET), certificado pelo The Narrative Enneagram Institute (EUA). Atua como representante no Brasil do Essential Enneagram Test (Stanford) e desenvolve programas, treinamentos e palestras voltados à liderança e gestão de pessoas, com foco na ampliação da autoconsciência e na melhoria das relações no ambiente organizacional.
Contato: [email protected].