Arquitetos do amanhã: por que a sociedade depende da sua gestão hoje?
Imagem ilustrativa criada com inteligência artificial.

Por Mariluci Durante · Revista Líderes, edição 12, janeiro/fevereiro de 2026, páginas 30–32.

Se você parar por cinco minutos e observar o feed das suas redes sociais ou os portais de notícias, vai perceber um padrão claro: o mundo parece estar em um estado de "fadiga sistêmica". O descontentamento não é mais apenas um ruído de fundo; é um grito alto. As pessoas estão cansadas de modelos de negócios, que operam como máquinas de moer gente e meio ambiente, em troca de números trimestrais que, no fim do dia, parecem não preencher o vazio de propósito da nossa geração.

Se você está começando agora a sua jornada na liderança ou teve clareza recentemente sobre seu papel como decisor, talvez sinta esse peso. Afinal, que mundo é esse que estamos construindo e ajudando a perpetuar?

A liderança moderna passa por uma redefinição profunda e urgente. Não dá mais para separar o "eu gestor" do "eu cidadão". A sustentabilidade ambiental e o bem-estar das pessoas deixaram de ser itens de uma lista de "responsabilidade social" para se tornarem o alicerce de qualquer empresa que pretenda existir nos próximos dez anos. O seu papel, como líder e administrador, é o de um arquiteto: você não está apenas entregando tarefas, você está desenhando e influenciando a sociedade em que todos nós estamos vivendo.

Navegando entre cisnes negros

Para projetar esse amanhã, precisamos entender o terreno onde estamos pisando. E esse terreno é habitado por "Cisnes Negros". O conceito, criado pelo estatístico e filósofo Nassim Taleb, é uma metáfora para eventos que possuem três características: são imprevisíveis (ninguém viu chegando), têm um impacto devastador ou transformador e, depois que acontecem, todo mundo tenta inventar uma explicação para parecer que eles eram óbvios.

Pense na pandemia de 2020, em uma crise financeira global ou em uma inovação tecnológica que torna um mercado inteiro obsoleto em meses. Esses são os Cisnes Negros. O grande erro da liderança tradicional foi acreditar que o mundo era linear e que planilhas de Excel podiam prever tudo e planejar um futuro sólido e em constante crescimento. A verdade é que vivemos em um sistema tão interconectado que um pequeno erro em uma cadeia de suprimentos do outro lado do mundo pode derrubar a sua operação amanhã. Essa fragilidade é o que gera tanta ansiedade na nossa sociedade. Mas, como líder, você não pode se dar ao luxo de apenas temer o inesperado. Você precisa aprender a dançar com ele e criar oportunidades mesmo nas crises.

Além da resiliência: a força da antifragilidade

É aqui que o jogo muda de nível. Quando as coisas dão errado, a palavra que mais ouvimos é "resiliência". É um conceito bonito, emprestado da física: a capacidade de um material voltar ao seu estado original depois de sofrer uma pressão. Mas vamos ser sinceros? No contexto atual, voltar ao estado original é um retrocesso. Se o modelo anterior era o que nos tornava vulneráveis a crises e causava o esgotamento do time, por que diabos queremos voltar para ele?

O novo líder busca a antifragilidade. Diferente do resiliente, que apenas suporta o choque, o antifrágil cresce com ele. Como nosso sistema imunológico: ele não é apenas resiliente; ele é antifrágil. Ele precisa de exposição a vírus e bactérias para se tornar mais forte. Na sua gestão, a antifragilidade significa criar processos e culturas que aprendem com o erro, que se fortalecem no caos e que evoluem para um estágio superior de maturidade a cada desafio superado. Em vez de tentar prever o próximo Cisne Negro, você constrói uma equipe e uma mentalidade que sejam capazes de se beneficiar da volatilidade. Isso é evolução real, não apenas sobrevivência.

O otimismo realista como ferramenta de transformação

Muitas vezes, ao falar de crise ambiental e colapso social, caímos em um pessimismo paralisante. Tudo parece ruim demais para ter chances de melhorar. No entanto, o líder que a sociedade digital humanizada exige é o "Administrador 5.0", aquele que pratica o otimismo realista.

Não confunda isso com "poliana" ou positividade tóxica. O otimismo realista vem da raiz latina optimus — a busca pelo melhor. É a escolha consciente de enxergar caminhos onde outros veem apenas muros. Enquanto muitos olham para a inteligência artificial com medo da substituição, o líder otimista a vê como uma oportunidade de delegar a rotina repetitiva e sem valor para focar no que é essencialmente humano: a empatia, a ética e a criatividade. Ao colocar o bem-estar e a felicidade como métricas estratégicas, você não está sendo "bonzinho" ou “ingênuo”; você está criando um ecossistema sustentável onde o talento floresce porque se sente seguro.

O otimismo realista leva equipes a ação e constrói pontes para superar dificuldades com a certeza de um futuro promissor, mesmo que ainda não seja possível ver com clareza o ponto final, a realidade que vivemos na era digital, em que o longo prazo é volátil.

O seu legado começa no próximo “clique”

Nós tendemos a pensar no legado como algo que deixaremos quando nos aposentarmos, uma estátua no pátio ou um nome em uma placa. Que erro clássico. O seu legado está sendo escrito agora, na forma como você responde a um e-mail sob pressão, na decisão de priorizar a saúde mental da sua equipe em vez de um prazo irrealista, e na coragem de questionar processos que agridem o meio ambiente.

As novas gerações — a sua geração ou do seu filho — têm uma bússola moral muito afiada. Elas não querem apenas um emprego; elas querem pertencer a algo que faça sentido. O líder que ignora isso está construindo sobre a areia. Já o líder que entende seu papel como arquiteto social sabe que cada decisão é um tijolo na construção de uma sociedade digital que, acima de tudo, precisa ser humanizada.

O papel do líder é justamente esse: quebrar as barreiras do "sempre foi assim" e encontrar formas de expandir a visão para evitar o ciclo predatório. O futuro não é algo que acontece conosco; é algo que nós fazemos acontecer.

Você está consciente do seu papel como o arquiteto do amanhã?

Dica de leitura: a sociedade que nós queremos

Se essas provocações ecoaram em você, há uma forma prática para aprofundar essa visão.

Acaba de ser lançado o livro "A Sociedade que nós queremos – Provocações para a sociedade digital humanizada". Escrito em coautoria por 10 especialistas de diferentes áreas da administração, a obra é um verdadeiro manifesto para quem busca gerir com consciência.

O livro traz frameworks e questionamentos essenciais para que administradores encontrem bases sólidas em diversos contextos — do digital ao físico, da grande corporação à pequena empresa. É o ponto de partida ideal para quem decidiu que seu legado será o de construir o amanhã, começando hoje.

Autores: Estela Schreiner – Idilio Santana Jr. – Lawrence Chung Koo – Marcos Augusto Vasconcellos – Marcos da Cunha Ribeiro – Mariluci Durante – Paulo Calegare Junior – Rogério Parente – UgoFranco Barbieri – Valdenice Sanchez


Sobre a autora

Mariluci Durante

Mariluci Durante

Diretora em empresa de tecnologia com 16 anos de experiência em lideranças de equipes multinacionais, dedicada atualmente a elaborar treinamentos, mentorias e palestras para desenvolver líderes na arte de gerenciar pessoas e uso da IA para amplificação de produtividade. Formada em Administração de Empresas pelo Mackenzie com MBA em Gestão de Tecnologia pela FIA, trabalhou por 3 anos na Alemanha, foi empreendedora, expandiu negócios de tecnologia no Brasil, atualmente mora e trabalha em São Paulo e colabora voluntariamente no grupo GEAPE Tech do CRA-SP.

Biografia conforme a edição original.

Contato: [email protected] · LinkedIn · Instagram

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