À frente da Maple Bear, Pablo Ibañez compartilha sua visão sobre gestão, o desafio de unir engenharia e sensibilidade humana, e os planos ambiciosos para o futuro da educação bilíngue no Brasil.

Por Douglas De Matteu — Revista Líderes

Entrevista publicada originalmente na edição 11 da Revista Líderes — novembro/dezembro de 2025. Os cargos, números e planos citados correspondem à época da entrevista.

Pablo Ibañez falando ao microfone em evento da Maple Bear
Pablo Ibañez. Foto publicada na edição 11 da Revista Líderes.

Em um cenário onde a educação passa por constantes transformações, liderar a maior rede de escolas bilíngues do país exige mais do que estratégia: exige propósito. Para entender como os líderes contemporâneos estão conduzindo grandes organizações, a Revista Líderes conversou com Pablo Ibañez, CEO da Maple Bear na América Latina.

Engenheiro de formação e com uma trajetória multicultural, Ibañez assumiu o comando da rede com a missão de conduzir um crescimento agressivo e, ao mesmo tempo, sustentar a excelência acadêmica que é marca do ensino canadense.

Nesta entrevista exclusiva, ele detalha sua transição de carreira, o modelo de franquias e sua filosofia de liderança baseada na transparência.

Revista Líderes: Pablo, para iniciarmos, fale um pouco sobre quem é o Pablo, sua formação e sua experiência. Sei que você já passou por outras instituições.

Pablo Ibañez: Sou engenheiro mecânico de formação pela Universidade Federal de Brasília. Nasci em Brasília, mas tive a oportunidade de morar no exterior logo cedo, pois meus pais eram professores universitários e foram fazer mestrado e doutorado fora. Morei dois anos na Espanha e seis na Inglaterra, o que me presenteou com a fluência nas línguas inglesa e espanhola.

Voltei ao Brasil, me formei, mas sempre quis vir para São Paulo fazer um mestrado. Construí minha carreira na área de engenharia — passando por projetos, construção e indústria — até 2020. Foi quando recebi um convite para liderar um grupo educacional inglês com escolas no mundo todo. Me encantei pela educação. Fiquei nesse grupo até o início deste ano, quando recebi o convite do Grupo SEB para liderar a Maple Bear. Achei um desafio fenomenal, não só por tratar de educação, mas pelo modelo de franquias, unindo minha experiência em negócios, governança e multinacionais a este setor.

Revista Líderes: Fale para nós um pouco sobre a Maple Bear no geral. Quais são os números, o diferencial e o segredo para crescer tanto?

Pablo Ibañez: A Maple Bear é uma rede de escolas de origem canadense que opera no modelo de franquia. Sem dúvida, é a maior rede de escolas bilíngues do Brasil e do mundo. Hoje, somos cerca de 230 escolas no Brasil, com mais de 45.000 alunos. Globalmente, somamos quase 500 escolas e atingimos a marca de 70.000 alunos. O Brasil é nossa principal geografia, mas temos crescido no mundo todo. A expectativa é que o Brasil chegue a 350 escolas nos próximos 5 anos e que o mundo se aproxime de 1.000 escolas. O segredo desse crescimento vem da estratégia de franchising, que permite acelerar a expansão, somada à qualidade do nosso produto.

Revista Líderes: Quando você chegou na instituição, como eram os números e o que você fez para que a coisa continuasse crescendo ou aumentasse o crescimento?

Pablo Ibañez: Estou completando seis meses de Maple Bear. Quando cheguei, em maio de 2025, já havia um plano de expansão territorial e orgânica muito bem desenhado.

O que fizemos foi iniciar um planejamento estratégico de 5 anos para o Grupo SEB (controlador da marca), no qual participei da construção.

Definimos pilares de crescimento, diferenciação e gestão. Especificamente sobre a Maple Bear, entendemos que estamos no “último terço” da expansão territorial no Brasil. Mas o nosso principal crescimento virá do que chamamos de crescimento orgânico: a maturação das escolas existentes.

O modelo começa no Early Years (Infantil), migra para o Fundamental e depois para o High School (Ensino Médio). Hoje, a maioria das nossas escolas está no Fundamental. Das 230 escolas, apenas 24 oferecem o High School. Temos o desafio gigante de subir de segmento com cerca de 200 escolas. Portanto, nosso crescimento virá da soma dessa expansão territorial final com o crescimento interno de cada unidade.

Revista Líderes: Qual é o grande diferencial da Maple Bear hoje? Existem outras escolas que ofertam o bilíngue. O que torna a Maple única?

Pablo Ibañez: Acredito que temos características únicas no mercado. Primeiro, nosso currículo mescla o melhor da BNCC (Base Nacional Comum Curricular) brasileira com o currículo canadense. O aluno é o protagonista e cocriador do aprendizado, enquanto o professor atua como designer desse processo.

Segundo, oferecemos um bilinguismo de imersão real desde o ensino infantil. Terceiro, somos uma rede global conectada. Em um país continental como o Brasil, cada escola tem sua cultura local, mas fazer parte de uma rede de 500 escolas globais é algo muito forte. Não entregamos apenas uma dupla diplomação que permite estudar fora; formamos cidadãos globais com capacidade crítica, analítica e criativa para escolherem seu futuro, seja em universidades no Brasil ou no exterior. Preparamos o aluno para um futuro incerto, dando-lhe ferramentas para fazer escolhas.

Revista Líderes: Como vocês fazem para desenvolver essas competências chaves para o futuro nas aulas?

Pablo Ibañez: Desde o ensino infantil, utilizamos a metodologia play-based, onde a criança aprende com experiências, desenvolvendo curiosidade e questionamento. À medida que crescem, entramos no modelo inquiry-based (baseado na investigação).

O aluno não pode simplesmente consumir conteúdo; ele precisa questionar e debater.

Os conteúdos são baseados em experiências próprias que, aliados à teoria, fazem o aluno pensar. Isso molda competências de liderança, trabalho em equipe, comunicação e capacidade de lidar com a tecnologia. Não sabemos exatamente como será o futuro, mas sabemos que esses atributos serão necessários.

Revista Líderes: Qual é a visão de futuro que vocês têm nesse planejamento estratégico de 5 anos? Qual o propósito que move a Maple Bear para esse crescimento?

Pablo Ibañez: É um crescimento agressivo porque estamos em um mercado de educação que está se movendo de forma agressiva e passando por consolidação, com grandes players globais e nacionais. Precisamos nos preparar para esse aumento de competitividade.

Para nos mantermos como referência, precisamos crescer e nos diferenciar. Essa expansão agressiva no Brasil e no mundo visa garantir que continuemos sendo líderes e que nossa metodologia de excelência chegue a mais lugares.

Revista Líderes: Como você consegue conduzir esses dois crescimentos: aumentar o número de franqueados e o crescimento orgânico das escolas?

Pablo Ibañez: O investimento em educação é de longo prazo. É um negócio estável, baseado na aquisição de alunos através da entrega de um produto de excelência e controle de custos. À medida que você equaciona isso, o negócio flui.

No entanto, cada etapa requer maturidade. Chamamos nossos franqueados de “Owners” (donos), pois respeitamos o negócio deles. O Owner precisa fazer o investimento inicial, mas já planejando os aportes futuros para as etapas seguintes (Fundamental e Médio). Quando a escola chega ao High School, é o momento da prova acadêmica, que consolida a maturidade da escola. O investimento é gradual e crescente, mas a receita recorrente também cresce. Temos uma equipe sólida na central para dar suporte a esses Owners na tomada dessas decisões de investimento passo a passo.

Revista Líderes: Vocês têm um plano de expansão geográfica específico? E como é o processo para quem quer se tornar um franqueado?

Pablo Ibañez: Sim, temos um mapeamento detalhado. Analisamos o extrato socioeconômico capaz de suportar nossa escola. Anos atrás, focamos nas cidades “Tier 1” (capitais). Depois, migramos para “Tier 2” (grandes cidades não-capitais). Agora, neste último terço de expansão, estamos olhando para o “Tier 3” (cidades entre 100 mil e 500 mil habitantes) e até “Tier 4 e 5” (cidades menores, de 50 mil habitantes, mas com renda per capita alta). Fazemos road shows, conversamos com investidores e vamos a feiras. O processo envolve um screening rigoroso do investidor e da localização até a assinatura do contrato. Em média, uma escola abre com 60 a 90 alunos, dependendo do modelo.

Revista Líderes: Existe um perfil de franqueado ideal que você já mapeou?

Pablo Ibañez: Em geral, são pessoas que já têm alguma relação com a educação ou que veem nela um propósito de vida, muitas vezes pensando na sucessão familiar. Mas também temos investidores que buscam diversificar seus negócios. O fundamental é que, independentemente do perfil, eles estejam dispostos a montar uma equipe forte, com conhecimento pedagógico, para tocar o dia a dia da escola. Nós damos todo o suporte para isso.

Revista Líderes: O que é liderança para você?

Pablo Ibañez: Em resumo: liderar é fazer as pessoas acreditarem em um propósito e terem uma crença. Não acredito em liderança teórica. Você precisa entender o negócio, capturar a “chama” dele e transmiti-la à equipe. Quando você coloca a equipe atrás da mesma crença, aí sim entram a estratégia, a tática e a execução. Liderar é garantir que todos entendam o porquê de estarem ali.

Revista Líderes: E qual é o propósito do Pablo hoje?

Pablo Ibañez: Meu propósito é liderar a Maple Bear para garantir que ela se torne, de fato, a maior e mais robusta rede bilíngue do mundo, democratizando o acesso a um bilinguismo de excelência e a uma educação canadense de altíssima qualidade.

Revista Líderes: Como você comunica esse propósito com sua equipe e com toda a rede?

Pablo Ibañez: Temos uma equipe muito forte na central — do backoffice ao acadêmico — que interage constantemente com os Owners e com as famílias. As famílias precisam perceber o valor agregado da nossa proposta. Utilizamos diversos canais, fóruns e comunidades para estabelecer e “empurrar” essa cultura educacional Maple Bear no dia a dia.

Revista Líderes: Você destacou a cultura. Quais são os valores que norteiam a cultura da Maple hoje?

Pablo Ibañez: Excelência acadêmica e respeito às individualidades e singularidades. Não somos uma escola “arrasa-quarteirão” com salas lotadas. Nossas salas são pequenas, permitindo um olhar individualizado. Respeitamos a capacidade de cada aluno aprender da sua forma e transferir aprendizado ao próximo. Valorizamos a relação professor-aluno como cocriadores do processo. Isso é um diferencial muito forte.

Revista Líderes: Como a Maple Bear treina professores e franqueados para manter esse padrão de qualidade em tantas unidades?

Pablo Ibañez: Temos dois processos distintos e robustos. Um é o treinamento acadêmico: duas vezes por ano, treinadores canadenses e brasileiros vão às escolas fazer um “download” do currículo e capacitar a equipe. O outro é o Quality Assurance (QA). Uma vez ao ano, um grupo de educadores canadenses vem ao Brasil para auditar as escolas. Eles entram nas salas de aula, assistem ao processo e verificam se está conforme o planejado. Se houver desvios, criam um plano de ação conjunto. É um ciclo de qualidade que se retroalimenta.

Revista Líderes: Qual o maior desafio que você tem hoje enquanto líder?

Pablo Ibañez: Vejo três grandes desafios. O primeiro é de negócios: adequar a linguagem de business ao ambiente escolar, que é muito peculiar. O segundo é a comunicação e o convencimento das famílias sobre a nossa proposta de valor em um mercado competitivo. O terceiro é garantir a entrega efetiva da excelência acadêmica na ponta. O resto — crescimento e números — é consequência de resolvermos bem esses três pontos.

Revista Líderes: Como vocês se adaptam às mudanças, como a Inteligência Artificial?

Pablo Ibañez: Fazemos parte do ecossistema do Grupo SEB, que investe pesadamente em inovação. Estamos criando um centro de pesquisas em ensino e aprendizagem, o Learning Design Research Center. Acreditamos que a pesquisa aplicada é o que vai nos manter na “crista da onda”, atualizados sobre tecnologia e metodologias. No dia a dia, isso se reflete no estudo do professor e na curiosidade do aluno, mas a estratégia macro vem desse suporte do grupo.

Revista Líderes: Você tem uma formação pragmática de engenheiro, mas fala muito em sensibilidade. Como você resolve problemas e desafios?

Pablo Ibañez: Minha filosofia para resolução de problemas, que trago desde a engenharia, é a transparência. Não existe problema insolúvel, existe problema não explicitado. Se você coloca todas as variáveis na mesa e trata as partes envolvidas como sócios na solução, você resolve. A sensibilidade, que se adquire com a maturidade, entra para dosar o planejamento e a tomada de risco. Transparência e propósito são os pilares que levo para qualquer gestão.

Revista Líderes: Para finalizar, qual legado o Pablo quer deixar e qual legado a Maple Bear quer deixar?

Pablo Ibañez: Eu quero cumprir os planos de crescimento entregando um ensino de altíssima qualidade. Quero que a Maple Bear continue seu legado, que não fui eu quem criou, mas que estou ajudando a expandir: levar o bilinguismo canadense para qualquer lugar deste país. Quero que famílias de diferentes regiões tenham o acesso e a opção de oferecer essa educação transformadora aos seus filhos. Se eu conseguir isso, meu legado estará completo.

Jogo rápido com Pablo Ibañez

Liderança é: Ativar a sensibilidade num piscar de olhos.

Comida favorita: Churrasco.

Maple Bear é: Um bilinguismo canadense de altíssimo nível.

O futuro: Incerto.

Família: Minha maior alegria. Ver meus filhos crescerem com saúde, ética e verdade.

Maior desafio: Fazer a Maple Bear chegar onde sonhamos.

Filme preferido: A Lista de Schindler.

Sobre o entrevistador

Douglas De Matteu, entrevistador e editor-chefe da Revista Líderes

Prof. Douglas De Matteu, PhD é CEO do Grupo IAPerforma e editor-chefe da Revista Líderes. Administrador, professor universitário, investidor, jornalista e escritor.

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