Por Prof. Douglas De Matteu, PhD
Entrevista publicada originalmente na edição 12 da Revista Líderes — janeiro/fevereiro de 2026.

Toda grande entrevista começa com uma experiência marcante. Recentemente, tive o privilégio de me hospedar com minha família no Blue Tree Thermas de Lins. Como alguém que já vivenciou diversas experiências de hospitalidade no Brasil e no exterior, fiquei profundamente tocado pela excelência, pelo cuidado e pelo nível de atendimento de toda a equipe.
Intrigado com a cultura vibrante daquele lugar, perguntei a um dos colaboradores quem estava por trás daquela gestão impecável. A resposta veio acompanhada de um nome de peso: Chieko Aoki.
Fui pesquisar e me deparei com uma trajetória fascinante. Formada em Direito pela USP, com cursos de especialização nos Estados Unidos e em outros países, e com uma forte raiz na cultura japonesa, Chieko é amplamente reconhecida no mercado como a “Dama da Hospitalidade”. Movido pela admiração ao trabalho de ponta que sua equipe entregou, fiz o convite para esta entrevista.
Com extrema generosidade e humanidade, ela aceitou compartilhar com a Revista Líderes um pouco da sua essência, sua visão de negócios, como construiu uma rede com mais de 22 empreendimentos (e 4.000 quartos) e as lições de uma liderança que prioriza, acima de tudo, o coração.
Revista Líderes: Chieko, para começarmos, como você se descreveria? Quem é a Chieko Aoki?
Chieko Aoki: Sou uma pessoa muito voltada para a excelência. Eu gosto das coisas bem-feitas; acho que, se é para fazer algo, que seja bem-feito. Sou muito exigente comigo mesma e profundamente comprometida. Para mim, a vida é uma missão que a gente cumpre. Não nasci líder, foi uma evolução moldada pelas circunstâncias da vida, mas sempre busquei superar expectativas. Essa é uma característica minha que também passo para a nossa equipe: quanto mais fazemos, mais a expectativa do mercado cresce, então precisamos evoluir sempre. E evoluir para quê? Para sermos pessoas mais úteis e melhores para aqueles com quem convivemos.
Revista Líderes: Hoje se fala muito sobre o líder ter um propósito claro. Qual é o seu propósito de vida?
Chieko Aoki: Meu propósito é continuar sempre aprendendo e compartilhando esse aprendizado. Como dizia Darwin, temos que estar em contínua evolução e adaptação às transformações do mundo. A minha missão é não estagnar e fazer com que o mundo evolua junto conosco, da forma como acredito: com paz, serenidade e pessoas felizes.
Quando fundei a Blue Tree, adotei um lema inspirado na Madre Teresa de Calcutá: “Não deixe jamais que alguém que se aproximou de você vá embora sem sentir-se melhor e mais feliz”. Esse é o lema da minha vida. Para isso, precisamos pensar sempre muito mais no outro do que em nós mesmos.
Revista Líderes: Como foi o seu início na hotelaria e o processo para transformar a Blue Tree em uma rede com mais de 22 empreendimentos em quase 30 anos de história?
Chieko Aoki: Comecei porque meu marido entrou em uma sociedade para a construção de dois hotéis. Depois, os sócios saíram, ele ficou sem ninguém para administrar e pediu minha ajuda. Como gosto de desafios e de coisas novas, entrei de cabeça. Tivemos sucesso e uma equipe muito boa para a época. Tive várias fases: meu marido cresceu muito, chegamos a ter uma rede de mais de 90 hotéis no mundo todo, o que me deu uma bagagem imensa.
Em 1997, ele vendeu a rede e logo depois ficou doente, com a saúde muito comprometida. Foi aí que comecei minha carreira solo, porque era o que eu sabia fazer: operar hotéis. Comecei do zero, com uma equipe pequena. Para crescer, a primeira coisa é ter uma equipe preparada. E como preparamos a equipe? Abraçando uma missão.
As pessoas que se encaixam nessa filosofia chegam, praticam e fazem até melhor. O trabalho não pode ser apenas um emprego, tem que ser uma razão para eles serem felizes também.
Revista Líderes: Como você conseguiu construir e imprimir essa cultura de felicidade e pertencimento em tantos colaboradores?
Chieko Aoki: A cultura nasce da gente; é a nossa essência. Na Blue Tree, a nossa essência é o que praticamos todos os dias. A cultura de uma empresa é como a de uma grande família. Mas ela também precisa ser uma cultura viva, em evolução, principalmente agora com a tecnologia.
Meu papel é evoluir essa cultura olhando lá para a frente, para daqui a 10 ou 20 anos, e preparar a equipe para esse futuro. Trabalhar apenas para o passado ou para o presente é muito chato, não traz sonhos. O que impulsiona a vida é a criatividade e a capacidade de sonhar. Eu quero deixar raízes e sementes. Liderar uma cultura é mostrar à equipe que eles têm um futuro enorme pela frente.
Revista Líderes: Olhando para esse futuro, como você visualiza a rede daqui a 10 anos e como a Inteligência Artificial entra nisso?
Chieko Aoki: A rede estará maior, mas não exageradamente grande, pois quero manter nossa relação próxima. Estaremos muito mais fortes em tecnologia.
A inteligência artificial veio para ficar e é uma transformação cultural que devemos assimilar e agradecer. Nós já a utilizamos bastante na parte de vendas e atendimento, mas eu não quero que a inteligência artificial apareça para o cliente; quero que as pessoas apareçam. A IA deve ser um suporte para nos dar mais tempo de dedicarmos à humanização.
A tecnologia nos dá a gestão e os dados, mas nós, humanos, damos o afeto. O que impacta e faz a diferença na vida das pessoas é o cuidado genuíno, a gentileza.
Revista Líderes: Que conselho você dá para novos líderes? Como é a sua atuação no dia a dia com a equipe?
Chieko Aoki: O líder tem que estar junto das atividades que a equipe pratica, porque a cultura se transmite na vivência. Eu adoro visitar nossos hotéis. E eu vou em épocas de ocupação mais baixa, justamente para poder conversar com a equipe, almoçar com eles, ver a área de descanso (o backoffice). Tenho que enxergar o hotel do ponto de vista de quem está no dia a dia, porque é ali que os problemas acontecem.
A liderança precisa ter dois ouvidos para ouvir e uma boca para falar. Tem que saber sentir a energia do ambiente, dar oportunidade para as pessoas se expressarem e levar leveza.
Eu sou muito rigorosa e exigente, então preciso ir com calma, compreender o tempo de adaptação de cada um, mas sempre estar aberta para aprender com humildade, principalmente com as pessoas novas. Liderar é acolher com o olhar, com o gesto e com a presença.
Revista Líderes: O que diferencia a Blue Tree no mercado e de onde vem essa forte cultura de acolhimento?
Chieko Aoki: Acredito que a diferença fundamental é a humanidade. Fazer com o coração. Não tenho vergonha de dizer que somos uma empresa que trabalha com alma e sente a energia do lugar. Nós transformamos o ambiente pela energia do acolhimento, de querer o bem e ser generoso.
Essa cultura vem muito dos meus pais. Minha mãe é extremamente generosa; ela mandava parar o carro no meio do trânsito para distribuir comida ou dinheiro a quem precisasse. Meu pai, nos negócios dele, priorizava ter clientes felizes acima do lucro; ele entregava mais do que devia só pela alegria de ver a satisfação das pessoas. Herdei e aprendi isso com eles.
Revista Líderes: A hotelaria foi severamente impactada pela pandemia. Como você lidou com esse e outros grandes desafios?
Chieko Aoki: Aprendi muito com as tragédias do Japão, um país vulcânico onde você precisa estar preparado para terremotos a qualquer momento. Quanto mais dificuldades passamos, mais aprendemos a importância da previsibilidade.
No início da pandemia, a primeira coisa que olhei foi o nosso fluxo de caixa: quanto tempo conseguiríamos nos manter? Estar preparado não tira a preocupação, mas tira o medo e te dá segurança.
Outro ponto que a cultura japonesa me ensinou é que o coletivo é mais forte que o indivíduo. Criar laços (Kizuna, a conexão afetiva com as pessoas) é o que nos salva nas crises.
Além disso, eu viro a página muito rápido. Não perco o sono, não fico vivendo das glórias do passado nem das frustrações do presente. Encaro os desafios com cabeça aberta e adaptabilidade. Durante a pandemia, nossa equipe criou novos produtos para estadas mais longas, e muitos são um sucesso até hoje.
Revista Líderes: Para encerrarmos, que legado você quer deixar como líder?
Chieko Aoki: Eu quero que o mundo seja melhor. O brasileiro tem qualidades incríveis: é acolhedor, alegre, empático e flexível.
Quero deixar o legado de fortalecer essa parte boa do brasileiro, unindo a ela o profissionalismo e a educação. Mostrar que esse jeito de ser é um diferencial competitivo enorme e que o Brasil pode ser um exemplo inspirador para o mundo. Além disso, quero ser lembrada como uma líder que extraiu o melhor de cada pessoa, ajudando-as a realizarem seus sonhos.
Jogo rápido
Um livro que marcou: Visões do Futuro, de Michio Kaku.
Blue Tree é: Alegria.
Liderança é: Credibilidade e humildade (são o núcleo).
Família: Importante.
Comida: Todas. Faz bem à alma.
Música: Faz bem à alma.
Espiritualidade: A essência.
Encerro esta entrevista com o coração transbordando alegria e um profundo sentimento de acolhimento. Fui recebido por Chieko Aoki com a mesma generosidade e empatia que ela inspira em sua equipe, provando que a verdadeira liderança, de fato, se faz com a alma.
Convido você, leitor, a vivenciar essa excelência e hospitalidade de perto: conheça o Blue Tree Thermas Resort, em Lins, e descubra na prática o poder transformador de ser verdadeiramente bem cuidado.
Sobre o entrevistador

Prof. Douglas De Matteu, PhD é CEO do Grupo IAPerforma e editor-chefe da Revista Líderes. Administrador, professor universitário, investidor, jornalista e escritor.